A inovação da solidão

As redes sociais parecem ser a solução para um medo que todos temos: a solidão.
Elas estão modificando a nossa forma de agir e de pensar. Como resultado disso estamos cada vez mais solitários.
Inspirado no livro de Sherry Turkle – Conectado mas só.

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O sugestivo título que dá nome a este post é homônimo ao de um vídeo bem interessante que caiu na rede esta semana, que dedica-se a investigar um fenômeno relativamente recente que tem intrigado não só a mim, como a muita gente: a percepção de que, quanto mais a tecnologia se empenha em conectar pessoas e eliminar em definitivo qualquer possível manifestação de solidão, mais solitários nos tornamos de fato. É certo que a paradoxal afirmação não chega a ser nenhuma novidade, afinal, basta concluir que nós mesmos somos as cobaias voluntárias desta onipresente virtualização das relações em todas as suas conhecidas instâncias, um experimento que, dada sua dimensão, frequência em que ocorre e capacidade de transformar o modo com que vivemos, inspira, no mínimo, atenção. Mas voltando ao já citado vídeo, a proposta é expor de maneira ultra-didática a nem sempre tão óbvia solidão que assola usuários frequentes de redes sociais, ironicamente, quando muitos acreditam que a ferramenta os ajudaria a caminhar justo no sentido oposto.

De acordo com estudos sociológicos realizados, isto ocorre porque seres humanos não conseguem relacionar-se com mais do que 150 pessoas ao mesmo tempo (considerando que, por definição, uma relação entre dois indivíduos envolve um nível mínimo de conhecimento e intimidade). Por sermos criaturas instintivamente sociais, inseridas num contexto análogo à experiência em sociedade proporcionada pelas comunidades virtuais – onde a obsessiva busca por pertencimento parece não encontrar limites –, muitas vezes acabamos caindo na tentação de recorrer a valores pouco nobres, tais como autocentrismo e consumismo, para acelerar, ou mesmo sintetizar, o processo de constituição da imagem que ostentamos perante os outros neste ambiente. E eis que, de uma hora para outra, o mundo no qual ‘tempo é dinheiro’ descobre uma tecnologia que assegura a qualquer um a possibilidade de administrar a própria vida sentimental de maneira mais rápida e eficiente; ao relativizar conceitos indispensáveis à criação e à manutenção de vínculos emocionais, passamos a colecionar amigos como se fossem figurinhas de um álbum, a priorizar quantidade em função de qualidade nas relações e, pior, a relegar o conceito de amizade à troca de fotos, publicações genéricas sobre temas aleatórios e bate-papos sem profundidade. Dessa forma, a conversação cede lugar à proximidade superficial, originando a estranha e a cada dia mais comum condição de sentir-se só mesmo estando em meio a tantos amigos.

Mas qual seria a dificuldade em se estabelecer uma conversa de verdade? Bem, conversas de verdade acontecem em tempo real, de modo que não é possível controlar com precisão o que será dito ou compreendido. SMS, e-mails e postagens, por sua vez, permitem que nos apresentemos da exata maneira com que desejamos ser vistos, ou seja, realizar uma minuciosa edição em que só consta o melhor de nós mesmos, o que pode muito bem implicar em horas dedicadas à construção de perfis, à escolha das palavras mais adequadas para a próxima postagem ou das fotos que mais nos beneficiam. Assim sendo, as redes sociais não estariam apenas transformando o que fazemos, e sim quem somos, visto que nos levam a acreditar em 3 falsas premissas: a primeira, que estamos atentos a tudo de relevante que ocorre a nossa volta, a segunda, que sempre seremos ouvidos e, a terceira, que nunca mais precisaremos estar sós. Talvez a maneira mais apropriada de descrever os riscos implícitos nesta última seria reconhecer o surgimento de um novo modo de pensar, um em que aproximam-se os sentidos de ‘compartilhar’ e ‘ser’, materializado na suspeita de que navegamos num oceano de publicações de experiências em parte ficcionais, cujo único propósito é conceder a seus autores a sensação de que estão vivendo intensamente. Mais do que apenas isso, o código de conduta vigente nas redes sociais parece determinar com clareza não haver espaço para a exposição de angústias e mazelas reais, a menos, claro, que carreguem em si uma dose considerável de ironia, e a consequência direta disso pode ser um distanciamento da própria essência.

Estaríamos então condenados a viver alienados, numa espécie de Ilha da Fantasia, cercada por porções incomensuráveis da boa e velha solidão? Não necessariamente. Uma das passagens mais marcantes de Alone Together, livro escrito por Sherry Turkle e que serviu como referência para a criação do vídeo, corresponde à narrativa de uma cena trivial, ainda que muito reveladora destes tempos: ao passar meses a fio observando o momento de reencontro entre pais e filhos na saída de escolas, Sherry notou a recorrente frustração das crianças ao constatar que seus pais e mães tinham toda a atenção voltada não para a porta por onde sairiam, mas sim para seus próprios smartphones. Ainda segundo a autora, esta geração enxerga a tecnologia como um competidor em potencial e, por isso, certamente não a utilizará da mesma maneira com que o fazemos agora. Resta, portanto, a esperança de que as crianças de hoje saibam ensinar amanhã a seus filhos como serem sozinhos, para que nunca se sintam verdadeiramente solitário.

Fonte: http://g1.globo.com/platb/instanteposterior/2013/08/14/a-inovacao-da-solidao/

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