Chupa essa manga

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(Texto de: Ailin Aleixo – Blog: A Mulher Honesta – Revista Alfa)

Nada mais insuportável do que gente que não diz o que sente. Ou que não sente e não diz. Tenho ganas de fazer engolir a faca de atravessado em quem demonstra tanta emoção quanto um sapo ornamental, sempre aquele sorrisinho indecifrável grudado na fuça. Amigo do peixe e camarada da isca. Sabonetão.

Não dá para confiar em quem se dá bem com todo mundo: parto da premissa de que quem é amigo da garotada não é verdadeiramente amigo de ninguém. Isso é só insegurança travestida de simpatia, uma baita necessidade de aceitação. Um tanto patético em se tratando de adultos, vamos convir. Da mesma forma, não boto nem um tiquinho de fé em homem que se dá fenomenalmente bem com suas exs— é sinal de que não se envolveu efetivamente com nenhuma, de que é tão raso e auto-resguardado que sai dos relacionamentos como se tivesse saído do cabeleireiro: impecável. Pessoas assim acham mais importante continuar sendo gostados do que amar, se entregar, e correr os riscos que isso envolve. Inclusive o de ser odiado.

Por isso quase nada (a não ser ausência prolongada de orgasmos) é tão decepcionante, esfrangalha tanto os nervos de uma mulher, como dividir a vida com um sabonetão. Está além das fronteiras do frustrante dar atenção, deixar de dar atenção, brigar, fazer as pazes com sexo tântrico-espacial, comprar cueca vermelha, vestir a cueca vermelha e dançar axé pela sala e nada acontecer. Nenhum surto, nenhum grito, nenhum beijo, nenhum riso largo e sonoro. Tudo sempre é morno, tem explicação, está bom ou (se for o caso) pode ficar melhor, tem saída. Sempre aquele irritante, imbecil, pseudo-zen sorrisinho.

Confesso minha inaptidão para compreender esse cruzamento de estátua do Madame Tusseau com garoto propaganda de pasta de dente: gosto ou não, sem meio termo. Não existe esse troço de estado de suspensão amorosa, bem porque se fulano não faz diferença na minha vida está automaticamente fora dela. Daí me deparo com pessoas para as quais as outras são como queijo ralado em pratos gratinados: se tiver, Oba! Que delícia; se não tiver, não faz a menor falta e não entendo lhufas. Se é pra não se molhar, pra que raios entrar na água?

Passionalidade é o que difere as relações humanas do cruzamento das minhocas, do namoro das iguanas. Quem passa pelo outro sem se intoxicar dele deixou de viver para se preservar (ô coisa besta), e vai ganhar o quê com isso? Histórias recheadas de momentos maravilhosos? Lembranças divertidas? Cicatrizes mentais e, em casos de exagero na dose, reais? Não, só vai perder: perder o próprio tempo e o do outro, privá-lo de viver com 100% da capacidade. Paixão de verdade, daquelas que vale a pena e o gozo, deixa vestígios. Qualquer coisa vivida por inteiro deixa vestígios: boa comida só é preparada sujando panela, quadros só viram obras-primas depois de muita tinta ter encardido as mãos do artista.

Amar, pra mim, é como comer manga: o prazer é diretamente proporcional à lambança e ao tempo que se demora pra tirar os fiapos. E daí se mancha? Tudo na vida tem seu preço. E algumas coisas valem cada centavo. 

 

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