O abençoado bar

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(Texto de: Ailin Aleixo – Blog: A Mulher Honesta – Revista Alfa)

Por Ailim Aleixo

Quando alguém sentencia “você precisa relaxar”, a primeira imagem que me vem à mente não é uma praia de areias brancas nem uma sessão de shiatsu, muito menos um laguinho de águas e patos calmos acompanhados por cânticos e mantras. Quando preciso relaxar, penso numa só coisa: uma mesa de bar.

Eu bebo. E digo mais: bebo melhor que muito macho porque não passo do meu limite para bancar a durona, não dou trabalho para os outros, não fico insistindo em assuntos que só interessam a quem já venceu a barreira do décimo chope, não viro vítima do copo que me consola nem entoo, num tom meloso pra lá de patético: “Sabia que te considero pra caramba?”

Bebo para ficar melhor do que sou, não pior. Bebo para superar minha timidez natural, porque gosto do sabor de um bom vinho, da ardência de uma cachaça pura, da pegada forte de um amaro. Bebo porque viver é um troço complicado e precisa, vez por outra, da simplicidade mental trazida pela graduação alcoólica. “Bebo para empatar com o mundo”, como diria Paulo Mendes Campos.

Todos precisamos de embriaguez. Alguns a conseguem rezando, jogando futebol, fazendo sexo, pintando. Tudo é a mesma coisa: necessidade de sair da realidade, de dar um pause na roda incessante dos pensamentos. Por isso a mesa de bar é tão mágica: ela nos transporta para outra dimensão em questão de minutos, alivia o peso do cotidiano, dos problemas e prazos, reúne amigos que vivem enjaulados em suas existências. A mesa de bar é a grande responsável pela dose certa de irresponsabilidade de seus freqüentadores, é a redentora da happy hour, a testemunha de amores pós-escritório, de lágrimas disfarçadas, xingamentos lavadores de alma, risadas arrastadas do passado ou surgidas de desejos bizarros para o amanhã. A mesa de bar é a terapia mais divertida que existe.

Também do Paulo Mendes: “A embriaguez é religiosa, e o altar das religiões antigas inventou de certo modo a mesa do bar. Aí, o homem punha-se em comunicação com o espírito divino, ligava céu e terra, transcendia-se”.

Por isso não tenho paciência para abstêmios. Não consigo entender quem não se dá o direito de perder as estribeiras vez por outra, que supõe ficar sob controle período integral (presunção bem irreal, aliás). Que chato deve ser viver ao lado de alguém que não compreende o prazer do primeiro gole em um chope cremoso, a delícia de esquecer calorias, brigas e tempo ruim e largar-se a sociabilizar sem preocupações pessoais nem gramaticais. Não entra na minha cabeça quem prefere dormir cedo a curtir um animado papo bem regado até mais tarde.

Quem é certinho o tempo inteiro é chato o tempo todo.

E, além de tudo, a bebida traz a beleza. Não aquela invocada pela proporção de goró ingerido. Não, essa desculpa de “tudo é bonito depois da quinta dose” é coisa de gente que não tem coragem de fazer o que quer sob o peso da sobriedade. A bebida invoca uma beleza mais sexy e sutil. Masculina.

Não existe nada mais charmoso e instigante que um homem de barba cerrada com um belo Negroni numa mão– e outro, na outra, pra mim.

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