Por que as mulheres se calam quando os homens discutem?

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Por Ivan Martins

Circula por aí a ideia de que as mulheres falam demais. Vira e mexe, alguém ao meu redor, homem ou mulher, faz um comentário desse tipo. Aponta-se para uma garota empolgada, falando alto, ou para um grupo de mulheres que tagarela alegremente, e vem o comentário em tom de piada: meu deus, como as mulheres falam!

Pois eu discordo.

A minha experiência sugere que as mulheres falam de menos – em situações de trabalho, em discussões entre amigos, em boa parte dos debates que extrapolem temas privados e demandem algum tipo de colocação pública.

A exuberância verbal das mulheres se manifesta entre elas, no grupo feminino, onde a participação no debate é democrática. Mas, quando homens e mulheres se misturam, e, sobretudo, quando o assunto da discussão de alguma forma fica “sério”, a maioria das mulheres fecha a boca e deixa os homens falarem.

Tenho visto isso acontecer no bar, nas salas de visitas, nas aulas e nas reuniões das empresas.

Outro dia, dei carona ao meu filho e dois colegas dele de escola, um rapaz e uma garota. Os três com cerca de 20 anos. Fiquei escutando. Meu filho e o amigo falavam o tempo todo – véio pra lá, véio pra cá – e a menina não dizia uma palavra. Eu tinha conversado com ela uns minutos antes, em casa, e sabia que era esperta.

No carro, fiz duas ou três perguntar para incitá-la a interromper o besteirol dos meninos. Inútil. Ela respondia com monossílabos e devolvia a palavra aos rapazes, que falavam pelos cotovelos. Foi frustrante. Sobretudo, por se tratar de uma experiência repetida.

É comum que as mulheres abdiquem do direito à palavra. Já tive mulheres que faziam isso, namoradas que faziam isso e um monte de amigas e colegas que ainda fazem isso.

Você está lá, empolgado com a conversa sobre a crise no Egito ou o preço dos imóveis, olha do lado e vê a sua mulher com cara de tédio. Por que ela não se contamina com a paixão do debate? Por que não participa? Por quer não entra no jogo? Eu não sei.

Nas ocasiões em que decidi perguntar sobre o silêncio da parceira, ouvi dois tipos de respostas:
1) a conversa entre vocês e os seus amigos é chata e desinteressante.
2) vocês falam tanto que não deixam espaço para nós (mulheres) falarmos.

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A primeira explicação me parece descartável. Não pode ser verdade que as conversas masculinas sejam invariavelmente aborrecidas. Cinema, futebol, política, trabalho, a vida sexual da presidente – será que nada merece a atenção das mulheres?

Duvido. Por isso eu acho a segunda explicação mais convincente: as mulheres ainda se intimidam com a postura dos homens nas discussões.

Os homens discutem como os uruguaios jogam bola, com 50% de testosterona, 20% de habilidade e 30% de empáfia. Somos sarcásticos, agressivos, damos tapas na mesa. Temos um jeito de transformar qualquer conversa numa disputa para ver quem tem o… cérebro maior. Por alguma razão, boa parte das mulheres se recusa a participar desse teatro.

Vocês acham isso importante? Eu acho. Mas, na semana passada, conversei com algumas mulheres e percebi que elas acham o próprio silêncio natural. Muitas nem acreditam que ele exista. Dizem que falam o que querem, quando querem. Que não há qualquer desconforto no silêncio que acompanha a falastrice masculina. Eu suspeito que não seja assim.

Minha experiência sugere que as pessoas se calam socialmente em três tipos de situações:

1. quando não sabem nada sobre um assunto;
2. quando percebem que aquilo que elas dizem é ignorado, (e, neste caso, o silêncio vira uma forma de protesto);
3. quando se sentem intimidadas pela autoridade ou pela agressividade dos interlocutores.

Em qual categoria se enquadra o silêncio das mulheres? Meu palpite é que se trata quase sempre de uma mistura das categorias 2 e 3 – ao mesmo tempo uma forma de protesto e uma conseqüência da intimidação.

Qualquer que seja a razão, é uma pena. Basta olhar as estatísticas e perceber que as mulheres já são tão escolarizadas e (provavelmente) tão informadas quanto os homens. Mas participam muito menos do debate social. Durante o churrasco da família, são os homens que discutem a violência ou a falta de mão-de-obra. Enquanto isso, sobre o que falam as mulheres? Eu não sei.

Nos últimos anos, quando estou interessado no ponto de vista de uma mulher sobre alguma coisa, converso com ela de um jeito mais privado – nem que seja num canto da mesa no bar ou ao lado da geladeira, durante a festa. Nas conversas menores, em duas ou três pessoas, quando o teatro da retórica masculina não está presente, percebe-se melhor a inteligência e a qualidade da prosa feminina. No meio da gritaria dos homens ela frequentemente se perde.

A rigor, eu nem precisaria dizer essas coisas. Boa parte de nós, homens, tem uma história de intimidade com as mulheres. A gente sabe como é ouvi-las ou discutir com elas entre quatro paredes. É com a mulher – ou com a namorada, ou com a amiga – que a gente pondera sobre coisas graves da vida. É com base na opinião delas que tomamos algumas das decisões mais importantes das nossas vidas. Logo, não é novidade que a mulheres pensem bem. O que seria novo é que elas mostrassem suas ideias em público.

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI209770-15230,00.html

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