A vida é um quebra-cabeça

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Há um momento na vida em que precisamos pensar e repensar toda a nossa trajetória até então, onde pegamos todas as angústias, frustrações, alegrias, crenças, ideais e até mesmos os sentimentos mais obscuros – colocamos por sobre uma mesa, olhamos e contemplamos a nós mesmos. Sobre essa mesa, após despirmos o nosso ser, há um imenso quebra-cabeça, multicolorido, obscuro, um pouco sem sentido: uma vida pretensamente vista de fora.

É preciso ter força suficiente para pegar cada peça na mão, dar uma olhada mais profunda: analisar, descartar ou guardar – cada peça posta fora é motivo de risada, é passado a ser esquecido, mesmo reconhecendo que em um determinado momento tenha tido alguma importância. Nesse sentido, somos tomados por tal força que nenhuma peça é jogada fora por ressentimento, mas apenas por alegria e reconhecimento de nós mesmos. Algumas peças não são postas fora, remontamos o quebra cabeça, e outras peças guardamos no bolso, reconhecendo que um dia elas terão importância e responderão a algumas lacunas desse imenso mapa inconcluso em forma de quebra-cabeça chamado vida.

Reiniciamos a aventura, montando peça por peça… o mapa começa a ter novas cores, novos amores, novos sentidos, e ainda mais novas angústias – um caminho imenso se abre ao olhos, pássaros cantam de forma tão diferente, antigas pessoas ganham novas cores, antigas idéias remontam novos caminhos; uma constante criação de paisagens é feita, a mão se faz a própria vida, o seu próprio quebra-cabeça – e é preciso ter muita serenidade e coragem para isso!

Veremos que além do que se parece um fim, se abre ainda uma caminho maior, desértico, indescoberto… Nisso tudo, algumas lacunas vão aparecendo e crescendo ainda mais… Lembramos então, que havíamos guardado algumas peças no bolso – muitas peças! Cada lacuna é uma pergunta, e cada peça guardada é uma resposta… Assim encaixamos ali, cada amigo guardado no bolso de nossas memórias, coisas ditas que sempre têm o momento certo para serem úteis… Novamente, o quebra-cabeça toma outra cor, outra alegria, mais ainda sim, a incompletude chama para a andança da vida…

Algumas imensas lacunas se apresentam de maneira tão violenta que um tremor no estômago acusa momentos de tribulações, novos sonhos se perdem, o quebra-cabeça perde as cores, e novamente a inconclusão nos toma de assalto, nos vemos sozinhos, e se perguntamos: “Por quê? Não me encaixo em nada… Sou eu também uma peça desse quebra-cabeça?”… Um deserto por sobre o deserto, tal qual apareceu ao andarilho de Nietzsche, nos aparece, nos vemos assim: sem sentido, totalmente perdidos… Na linha tênue entre a consciência e a desconsciência de nós mesmos – quem disse que sabemos tudo de nós mesmos? Paramos, passam-se anos… e percebemos, olhando para trás – pois o quebra cabeça é como estrada que construímos para a nossa andança -, que cada vez que se encaixamos entre as peças do nosso quebra-cabeça, estávamos de um jeito diferente: uma mesma peça que se encaixava hora de um jeito e hora de outro, mas permanecia o mesmo e ao mesmo tempo diferente… E assim, totalmente entregue à vida, um pouco estóico, esperamos um novo momento, uma nova lacuna, para sacar de nosso bolso um amigo, e sacar de sua alma nós mesmos… Em um movimento constante de junção de peças, criação e amor: a nossa própria vida.

Fonte: http://ensaius.wordpress.com/2008/01/06/a-vida-e-um-quebra-cabeca/

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A vital capacidade de esquecer

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A capacidade de esquecer é o que existe de mais precioso sobre a face da terra, sob as nossas faces. Amar é mais magnânimo, mas não tão essencial quanto o esquecimento: é ele que nos mantém vivos. O amor torna a paisagem mais bonita, mas é o bálsamo curativo do esquecimento que nos faz ter vontade de abrir os olhos para vê-la. A paixão empresta um sentido quase mítico aos dias, mas é esquecer da excruciante tristeza perante a morte dela que nos torna aptos para nos encantarmos novamente dali a pouco.

Já esqueci amores inesquecíveis e sobrevivi a paixões que, tinha convicção, me aniquilariam se terminassem. Às vezes cruzo na rua com fantasmas que já foram muito vivos na minha história e não deixo de sentir uma certa melancolia por perceber que aquele rosto um dia pleno de significado se tornou tão relevante quanto um outdoor de pasta de dente. Algumas pessoas são apagadas da memória como filmes desimportantes. Apenas esmaecem até desaparecer. Mas é mesmo impossível nos lembrar de todos os que passaram por nós: gente demais, espaço de menos. Da mesma forma que minha história está repleta de coadjuvantes e figurantes que, irrefletidamente, se auto-proclamavam protagonistas, eu devo ser a personagem cômica da história de alguém. Ninguém se esquiva da experiência constrangedora de bancar o bobo da corte no reino de outro.

Mas esse oco de significado não vem sem um certo pesar. É dolorido ser olvidado: não é fácil encarar que não somos insubstituíveis e que nossa saída displicente abre uma possibilidade de entrada tão desejada por outros. Mas só nos desenroscamos e seguimos nosso rumo natural, em frente, quando eliminamos alguns seres que, caso contrário, nos prenderiam aos emaranhantes aguapés de recordações.

“Há pessoas que ficam doendo com a lembrança de outra pessoa, entra ano, sai ano, virando e revirando o caleidoscópio, olhando como caem e se dispõe as cores e os cristais do sofrimento” (Paulo Mendes Campos).

O passado deve ser mantido no lugar dele e não trazido nas costas feito mochila de viajante, lotado com os erros cometidos e alegrias jamais revividas. Para ser feliz é necessário pouca coisa além se livrar do excesso de carga e esquecer as coisas certas. É útil também jamais perder de vista um detalhe, afixá-lo no espelho do banheiro, repetir como um mantra: absolutamente nada é pra sempre, nem sentimentos que parecem ser. Nunca mais haverá amor como aquele? Ótimo, porque o novo é tão imenso que seria um desperdício se algo se repetisse.

Todo mundo passa. E é bom que seja assim.

http://vilaclub.vilamulher.com.br/blog/outros/a-vital-capacidade-de-esquecer-9-5306599-146489-pfi-agimaque.html