Teu email chegou numa boa hora

Mário, teu email chegou numa boa hora.  Tenho pensado muito nisso também, nesse distanciamento dos amigos. Tenho pensado que muitas vezes eu tenho o hábito de preservar relações de amor (até exageradamente) e acabo sendo desleixado com os amigos, talvez por crer que eles vão estar sempre ali, disponíveis, do mesmo jeito, intocáveis, usando as mesmas roupas, as mesmas piadas e histórias. Pegar o violão e tocar a mesma sequência de cifras. Porque tenho essa intuição de que a amizade cristalizada nunca se modifica, passe o tempo que passar. Quando se encontra um velho amigo, embora haja uma estranheza inicial, basta evocar um primeiro evento marcante (ou banal), e tudo é reconhecimento.  É mais fácil se livrar de um grande amor que à época parecia inesquecível, do que se livrar dos laços de uma amizade, (se bem que, contrariando o Paulo Mendes Campos, amor não acaba. Se acabou não era amor, era amor de ocasião gerado sabe-se lá porque, e incapaz de se renovar; sou mais aquele poema do Carver, do corte de cabelo. E haja cachaça quando ocorre assimetria). Amizade, por sua vez, é alguma coisa de campo de batalha. Nunca estive num campo de batalha, é claro, mas acho que é isso. Depois de passar por certos momentos juntos, vivenciar certas experiências juntos, cria-se um repertório existencial que nunca se quebra (isso vale pra qualquer nível de relacionamento humano, eu acho), um vínculo necessário que se estende e nunca mais arrebenta, principalmente se for apenas pela distância contigencial, só pela falta de convivência no dia a dia. Porque, aliás, o dia a dia é meio raçado com as obrigações e a seriedade, e nessa rotina de obrigações e dos cumprimentos sérios, ou dos risos treinados, surgem os amigos de ocasião, que não deixam de ter seu valor, mas eles acabam ocupando um espaço que é daqueles que não podem estar perto, seja qual for o motivo. Não como um reserva ocupa o lugar de um titular machucado, deixando o treinador de cabeça quente, amigos de ocasião são meio como reservas de luxo, com quem sempre podemos contar. E é comum a gente sempre dizer a esse amigo de ocasião: “Mas você parece demais com um amigão meu, nossa senhora. Você tem que conhecer esse meu amigo.”  Essa distância, os rumos que a vida vai tomando com o passar dos anos, acabam gerando esses desencontros, esse distanciamento da rotina um do outro. Bons tempos aqueles que nos enfiávamos na roça como se não houvesse amanhã, e talvez não houvesse mesmo, e talvez nunca haja, além dessa crença (ilusória, porém necessária) de um amanhã nos esperando como um lugar no espaço, como um endereço exato. E é aqui, acho, que está o nó da questão. Esse endereço no amanhã, é quase sempre individual, cada um acaba embicando o rosto no próprio rumo e segue em frente. Sabe que se não fizer isso, ninguém, nem o melhor dos amigos ou familiares irá fazer. Não dá pra transferir a carga da vida. Ou como diz o povo da nossa terra, “cada um leva sua própria cruz”.  Mas esses nossos endereços acabam se atravessando, sempre, numa esquina por aí. Principalmente, se a gente fizer um esforço, tomar a iniciativa de marcar alguma coisa.  Afina o violão e chama o Dedé.  (Autor Marcos Vinícius Almeida, ganhador do Prêmio UFES de Literatura 2009/2010, autor do romance: Inércia )

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