Quem foi Simone de Beauvoir?

SIMONE

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino. BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=xL4DG-5o5Uk

Avaliação tradicional de funcionários começa a perder espaço

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São Paulo — Um grupo de quase 700 funcionários da subsidiária brasileira da General Electric deixou para trás neste ano uma rotina repetida ao longo de quase cinco décadas pela empresa no mundo — a avaliação anual de desempenho. O processo começava com o preenchimento de um questionário a respeito da atuação de cada empregado ao longo do ano e acabava com uma reunião de feedback com o chefe direto.

Em vez disso, eles passaram a usar agora um software no qual publicam, sem um cronograma rígido, suas conquistas e anseios relacionados à carreira. Ali também opinam a qualquer momento sobre o desempenho de colegas e chefes. No lugar do feedback anual, os times foram estimulados a manter mais diálogo sobre carreira ao longo do ano.

Ao todo, 80 000 empregados da companhia no mundo fazem parte desse projeto piloto, que busca alternativas ao modelo tradicional de avaliação de pesso­­al. Até o fim de 2016, todos os 300 000 funcionários deverão participar de um novo formato de avaliação.

“Estamos estudando um modelo de cocriação da carreira, com um processo mais fluido e dinâmico”, diz Ana Lucia Caltabiano, vice-presidente de recursos humanos da GE para a América Latina.
A mudança não é nada trivial. O modelo de avaliação de pessoal — com reuniões anuais de feedback e classificação do desempenho dos funcionários — foi popularizado nos anos 60, celebrizado por companhias globais, como a própria GE, e hoje são quase onipresentes em todo o mundo.

Até pouco tempo atrás, pouca gente questionava o sistema, usado para estabelecer todos os outros processos de RH — promoções, demissões, concessão de bônus e de treinamentos. Nos últimos anos, porém, os princípios desse modelo deixaram de ser unanimidade. Cerca de 10% das 244 grandes empresas globais abandonaram o ranking anual de funcionários, de acordo com o Instituto de Produtividade Corporativa, nos Estados Unidos.

O que mudou? Segundo especialistas, em muitas empresas a percepção de que os processos tradicionais não funcionam bem avançou gradualmente na última década. Mas até agora ninguém sabia ao certo o que fazer no lugar.

“A essência da avaliação de desempenho é propagar a cultura da empresa, falar aos funcionários de maneira clara o que se espera deles e ajudar a desenvolvê-los”, diz Caroline Marcon, diretora da Hay Group, consultoria especializada em gestão de recursos humanos. “Algumas empresas começam a perceber que investem tempo demais em processos pouco eficientes e tomam a coragem de propor algo diferente.”

Um dos mais novos críticos declarados é o presidente mundial da consultoria americana Accenture, Pierre Nanterme, que anunciou em julho o abandono das avaliações anuais e também da curva forçada, na qual classificava todos os 336 000 funcionários no mundo em três grupos: os 30% melhores, os 65% considerados intermediários (que eram, por sua vez, divididos em dois subgrupos) e os 5% piores.

A novidade vem sendo tratada como uma mudança estrutural, e não apenas um modismo. No caso da GE, a transformação foi apresentada por Raghu Krishnamoorthy, chief learning officer (algo como “executivo responsável por treinamento”) da empresa, como parte de uma mudança cultural da companhia, em busca de velocidade e simplicidade.

“Eventos anuais são coisa do passado”, afirmou num artigo recente. Nesse sentido, o planejamento estratégico passou a ser revisto a cada trimestre. A avaliação de pessoal ganhou, segundo ele, “uma abordagem em tempo real”.

As mudanças vão ao encontro do que as pesquisas de clima apontavam há algum tempo — o processo todo passou a ser considerado burocrático, demorado e por vezes injusto por uma parcela crescente de funcionários. A percepção é predominante entre os millennials, nascidos depois de 1980.
Sedentos por feedbacks mais recorrentes, eles já representam mais da metade da força de trabalho da GE no mundo. Na Accenture, 66% dos 336 000 funcionários em 56 países têm menos de 35 anos. Neste ano, a consultoria iniciou testes de um novo modelo com 15 000 funcionários em seus escritórios na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos. O novo formato extingue 90% do modelo anterior — como longos formulários. No lugar, entram mais conversas sobre carreira e desempenho.

Ameaças físicas

Os argumentos a favor da mudança vão além da simples percepção de que o modelo antigo tem problemas. Um estudo realizado por pesquisadores do NeuroLeadership Institute, nos Estados Unidos, aponta que o exercício de atribuir uma nota às pessoas ativa a mesma parte do cérebro responsável por ameaças físicas.

“Ficou evidente que o sistema tradicional estimula a concorrência entre pares em vez de incentivar o trabalho em equipe, o que pode criar um ambiente de trabalho pouco produtivo”, diz a psicóloga e consultora Eva Hirsch Pontes.

Em outro estudo publicado por uma associação canadense de recursos humanos, pesquisadores avaliaram o desempenho de 198 grupos de diferentes profissionais e chegaram à conclusão de que, em 93% dos casos, o desempenho das pessoas não se encaixa na distribuição normal — modelo estatístico inventado pelo matemático Carl Friedrich Gauss no século 18.

Amplamente utilizado na área de gestão de pessoas, o modelo prevê que a grande maioria dos funcionários tenha um desempenho mediano em suas atividades; cerca de 10% apresentem performance superior; e os outros 10%, inferior. Na prática, o que se tem visto nesse caso é um esforço burocrático e pouco efetivo.

“Os líderes passavam horas em reuniões para calibrar as notas de cada funcionário e garantir que haviam preenchido todas as cotas”, diz o argentino Gaston Podesta, diretor global de RH da Accenture. A própria GE, que ajudou a popularizar a curva forçada nos anos 80 e 90, sob o comando do lendário Jack Welch, abandonou o modelo há uma década.

Boa parte das mudanças vai no sentido de tornar as conversas mais frequentes e deixar a hierarquia menos rígida. Em janeiro, os 8 700 funcionários dos 30 escritórios da rede social LinkedIn no mundo passaram a escolher cinco pares ou gerentes, além de seu chefe direto, para opinar duas vezes ao ano sobre seu desempenho.

O funcionário também avalia seu chefe. Parte da equipe da sede, no Vale do Silício, começou a usar um software para registrar semanalmente conquistas e desafios. O chefe cria cinco perguntas por semana, que a equipe responde em 15 minutos. Essas respostas, por sua vez, são lidas e respondidas novamente pelo chefe em 5 minutos.

A ideia é colocar no papel questões que realmente importam no dia a dia. A consultoria americana Deloitte calculou que seus executivos ao redor do mundo gastavam 2 milhões de horas por ano com processos de avaliação, muitas desperdiçadas com burocracia.

Como parte da solução, trocou longos questionários anuais por quatro perguntas ao final de cada projeto ou a cada trimestre: se fosse meu dinheiro, eu daria um aumento a essa pessoa? Eu quero essa pessoa em meu time? Essa pessoa está pronta para uma promoção hoje? E ela tem risco de baixo desempenho?

Algumas experiências parecem flertar com o caos. Na Accenture e na Microsoft, os chefes ganharam o poder de arbitrar a distribuição dos bônus — só não podem recompensar apenas uma pessoa. Na Accenture, eles podem dividir o prêmio em partes iguais. Na Microsoft é preciso haver pelo menos alguma diferença.

Loucura? Segundo os executivos dessas empresas, não. Para eles, o modelo anterior, na tentativa de ser mais objetivo, criava mais arbitrariedades. “Antes distribuíamos o bônus segundo a curva forçada e muitas vezes os chefes não achavam justo privilegiar alguns quando todos se saí­ram bem”, diz Daniela Sicoli, gerente de RH da Microsoft do Brasil.

As mudanças começaram em janeiro de 2014, com a chegada do indiano Satya Nadella à presidência mundial da companhia. Ninguém sabe se tudo isso vai funcionar — e ajustes deverão ser feitos na busca por um formato ideal. Mas há sinais de que esses pioneiros estejam no caminho certo.

Na GE, alguns já reportaram que agora têm uma conversa de verdade sobre a carreira, e não uma correria para entregar toda aquela papelada no prazo. Na Microsoft, o nível de satisfação dos funcionários melhorou 30% com o novo modelo. Em meio a incertezas, parece haver a convicção de que algumas práticas ficaram mesmo no passado.

Fonte: http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1096/noticias/avaliacao-tradicional-de-funcionarios-comeca-a-perder-espaco

O assunto não é você

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Poucos conselhos são mais perversos e canalhas do que o popular “trate as outras pessoas como gostaria de ser tratada”.

Não é verdade. Sabe por quê? Porque a outra pessoa é uma outra pessoa. Porque ela teve outra vida, outras experiências. Porque ela tem outros traumas, outras necessidades. Basicamente, porque ela não é você; porque você não é, nem nunca vai ser, nem deve ser, a medida das coisas.

Se você se usa como parâmetro para qualquer coisa, talvez devesse pensar duas vezes. A outra pessoa deve ser tratada não como VOCÊ gostaria de ser tratada, mas como ELA merece e precisa ser tratada.

E você pergunta:

“Mas, Alex, como vou saber como essa tal outra pessoa merece e precisa ser tratada?”
Bem, para isso, o primeiro passo é sair de si mesma e deixar de se usar de parâmetro normativo do comportamento humano. Essa é a parte fácil.

Depois, abra bem os olhos e os ouvidos. Reconheça que existem outras pessoas e que elas são bem diferentes de você.

Então, conheça-as.

A primeira coisa que aprendemos em vendas é a colocar sempre o foco nos clientes. A chave para vender algo é resolver um problema ou necessidade dos clientes – nem que para isso você precise criar a necessidade! Idealmente, suas frases devem girar sempre em torno dos clientes:

“O que posso fazer para colocá-LOS em um carro novo hoje mesmo?”, etc.
As equipes de vendas não fazem isso à toa. Funciona mesmo.

Entretanto, nas últimas décadas, a técnica se espalhou. Basta ver a capa de qualquer revista:

“20 maneiras de agradar SEU homem”, “A recessão: como ela afeta o SEU emprego”, “ENTENDA a crise em Ruanda”, etc.
Esse último é especialmente traiçoeiro, por ser mais discreto. Entretanto, o efeito desse “entenda” é enorme, pois ele muda totalmente o eixo da discussão. Agora, o foco não é mais a crise em Ruanda, mas VOCÊ: o importante não é mais o sofrimento daquelas pessoas exóticas de uma cor diferente da sua, mas que VOCÊ entenda (superficialmente, claro) mais uma coisa para poder demonstrar ao pessoal do trabalho como está up-to-date com assuntos internacionais. Você, você, você. Não podemos nem mais falar sobre a crise em Ruanda sem arrastar, logo quem, VOCÊ para o meio da conversa.

A falácia, naturalmente, é que você não tem nada a ver com a crise em Ruanda.

* * *

Falando em termos da classe média ocidental, vivemos em um mundo onde os pais e as mães param tudo para virar escravas das filhas: até Mozart na barriga da mãe escutam. Depois, crescem sendo as deusas e os reizinhos da casa, mandando em empregadas, vendo o mundo girar a sua volta. Na TV, mil anúncios voltados pra elas. Nos mercados, mil produtos feitos especialmente para fazer as crianças pentelharem os pais e as mães para comprá-los. Nas escolas, as alunas agora também avaliam as professoras e exigem um bom serviço em troca das suas mensalidades. Se alfabetizam lendo as mesmas notícias acima, sobre como isso ou aquilo os afeta, sempre dando a entender que a crise em Ruanda só existe para que a entendam.

Aí, crescem e se tornam pessoas adultas que, ao invés de refletir sobre os privilégios que têm, lutam pelos que não têm; que acham que uma petição online é mais que nada; que pensam que vão salvar o mundo pelo consumo responsável, comendo atum dolphin-free e palmito não-proveniente da Mata Atlântica.

Ou seja, se tornam pessoas adultas que acham, sinceramente, do fundo do coração, que tudo gira em torno delas. Que o assunto é sempre elas.

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Fala-se de racismo, e lá vem:

“mas tenho amigas negras”, “já namorei uma negra”, “chamo meu amigo de Sombra /Grafite/Tição/etc e ele nunca se importou”.
Só que sua opinião, seus amigos, suas namoradas, tudo isso é irrelevante, entende? O racismo é maior que você, já existia antes, vai continuar existindo depois. Essa discussão tem que se dar no nível da história e da sociologia, dos indicadores econômicos e das injustiças contemporâneas. Quando muito, talvez, da experiência pessoal das pessoas negras que sofrem a discriminação, mas mesmo isso é altamente subjetivo, pois o preconceito também é introjetado pela própria comunidade. Mas, com certeza, não da SUA experiência pessoal.

O assunto não é você.

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Fala-se de aquecimento global, e lá vem:

“mas esse ano teve uma tempestade de neve na minha cidade”, “2012 foi o inverno mais frio da memória”, etc.
Só que as nevascas na sua cidade são incidentais e anedóticas, entende? Eu mesmo não tenho opinião sobre aquecimento global, mas ele vai ser provado ou desprovado através de gráficos climáticos globais sobre oscilações de temperatura ao longos dos séculos – e não pela quantidade de neve bloqueando seu carro no inverno passado.

O assunto não é você.

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Fala-se de feminismo, e lá vem:

“essas feministas são muito histéricas, eu jamais me incomodaria da minha chefa passar a mão na minha bunda”, “minha mãe foi dona-de-casa a vida inteira e muito feliz”.
Mas você não é mulher, entende? As mulheres ganham menos, sofrem mais violência doméstica, são estupradas, morrem em abortos clandestinos – todos fenômenos com métricas facilmente encontráveis. A discussão tem que dar através desses números. As coisas que você-homem faria ou sentiria se estivesse no lugar delas são irrelevantes, pois você não está e nem nunca estará no lugar delas.

O assunto não é você.

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Fala-se de homofobia, e lá vem:

“não tenho nada contra mas acho que essas paradas gays me incomodam e só estigmatizam o movimento”, “minha religião diz que é pecado”, “se duas pessoas gays se beijarem em público, como vou explicar isso pra minha filha?”
Mas sua religião, sua opinião, seu incômodo, sua filha, isso tudo é irrelevante, entende? Outras pessoas-cidadãs tem outras religiões, outras opiniões, outras filhas – e têm os mesmos direitos que você. Se as manifestações gays te incomodam, resolva o problema na terapia ou no templo. Você não saber como explicar à sua filha um fenômeno humano ancestral como a homossexualidade não é justificativa para proibir alguém de viver seu amor.

O assunto não é você.

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Os exemplos poderiam continuar ad eternum. Aborto, transfobia, descriminalização das drogas, pobreza. Deixe sua contribuição nos comentários.

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Uma amiga leu o rascunho desse texto e perguntou:

“É lindo isso, mas como você consegue ser assim?”
E eu tive que rir: mas quando foi que eu disse ou sugeri, em algum momento, por um segundo que fosse, que eu conseguia ser assim?!

Não estou me colocando acima desse comportamento. Bom narcisista que sou, escrevi o texto não pensando nas outras pessoas, mas em mim mesmo e na minha própria vontade (tão vaidosa e tão narcisa) de ser a melhor pessoa possível. Pois eu também faço tudo isso. Escuto alguma coisa e já trago logo para mim, quero saber como afeta a minha vida, tenho sempre uma anedota pessoal para contribuir.

Não estou falando de cima, como o guru que conseguiu praticar um comportamento ilibado, pontificando às infelizes lá embaixo que ainda não chegaram ao seu nível de iluminação: pelo contrário, estou falando a partir dos subterrâneos, do meio da multidão; estou falando justamente da briga diária que travo comigo mesmo, todo dia, o tempo todo.

Mas agora estou mais alerta. Tento não reincidir. Já consigo morder a língua antes de falar besteira. Convido vocês a tentarem fazer o mesmo. E, na próxima vez em que virem alguém se colocando em um assunto onde não deveria estar, deem o link desse texto.

Repitam comigo. O assunto não é você.

Ou melhor, o assunto não sou eu. O assunto não sou eu.

* * *

Esse texto faz parte do meu livro Outrofobia: Textos Militantes, publicado pela editora Publisher Brasil em 2015. São textos políticos, sobre feminismo e racismo, transfobia e privilégio, feitos pra cutucar, incomodar, acordar.

Se você gostou do que eu escrevo, então, dá uma olhada no livro: custa só trinta reais e deve ter mais coisa que você vai gostar também.

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Para chamar atenção para o sexismo da nossa língua, o texto acima usa o feminino como gênero neutro. Mais detalhes sobre essa técnica aqui. Leia também minha declaração de princípios e minha carta aberta às pessoas privilegiadas.

Fonte: http://www.papodehomem.com.br/o-assunto-nao-e-voce/

O medo à liberdade e a alma humana – dos ditadores à autoajuda, com leandro karnal

“Por que aceitamos obedecer e deixar de ser autônomos?”, perguntou o historiador da Unicamp Leandro Karnal durante o primeiro Café Filosófico CPFL da série sobre “Servidões voluntárias e involuntárias”.
Com base no livro “Discurso sobre a Servidão Voluntária”, Karnal traçou um paralelo entre os ensinamentos de Etienne la Boétie e o período atual.
“Hitler não teve acesso à quantidade de informações que hoje qualquer central de telefonia tem hoje. Somos o que Étienne temeu: uma sociedade feliz com tiranos no controle.”
A violência, disse o historiador, não garante o controle. “É preciso que as pessoas concordem e gostem de ser controladas.”
Segundo Karnal, exemplo da servidão voluntária contemporânea é informar ao mundo o que consumimos pelas redes. “Ninguém me obrigou a dar essa informação. Francis Bacon dizia: ‘conhecimento é poder’.”
Ser livre, completou, nos torna responsável por nossas escolhas. Por isso, afirmou, casamentos arranjados raramente dão errado. “Nada espera-se deles.”
“A liberdade é responsabilidade: quanto mais ofereço chance de as pessoas escolherem, mais angustiadas elas ficam. As escolhas nos tornam sujeitos, mas também objetos. O impulso de ser um sujeito por uma escolha nos tornam também objetos do consumo.”
A servidão, por sua vez, pode ser uma zona mais confortável que a liberdade. “Boétie falou sobre o incômodo da liberdade séculos antes de Sartre. Os tiranos precisam de assessores. Precisam de um grupo que os apoie. Quanto mais sou oprimido, mais eu tiranizo também. Assim os tiranos se multiplicam. Cada um pisa naqueles que é possível. O mais subserviente dos gerentes é aquele que pisa no faxineiro”, disse.
No encontro, Karnal citou um conselho de Étienne como um alerta sobre as servidões contemporâneas: “Sejam resolutos em não servir. E vocês serão livres”. E completou: “A função do Estado é ser tirano. Precisamos pensar na nossa liberdade diante deste Estado. E parar de seguir gurus de moda, de comportamento, de gastronomia”.
Assista à íntegra do encontro em:

https://vimeo.com/141553743

Liberdade em ação

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(Capítulo Seis) 

SAVATER, Fernando. A Liberdade em Ação. In: As perguntas da vida. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p.103-122.

O homem habita no mundo. “Habitar” não é o mesmo que estar incluído no repertório de seres que há no mundo, não é simplesmente estar “dentro” do mundo como um par de sapatos está dentro de sua caixa nem ter um mundo biológico próprio como o morcego ou qualquer outro animal. Para nós, humanos, o mundo não é simplesmente a trama total dos efeitos e causas, mas a palestra cheia de significado (…)

(…) o que significa “atuar”?, o que é uma ação humana e como ela se diferencia de outros movimentos que os outros seres fazem, assim como de outros gestos que também nós, humanos, fazemos?, não será uma ilusão ou um preconceito imaginar que somos capazes de verdadeiras ações e não de simples reações diante do que nos rodeia, nos influencia e nos constitui?

Suponhamos que eu tenha tomado um trem e comprado o bilhete correspondente. Durante o trajeto, estou distraído, pensando em minhas coisas, e sem me dar conta vou brincando com o pedacinho de papelão, que eu enrolo e desenrolo, até jogá-lo descuidadamente pela janela. Então aparece o fiscal e me pede o bilhete: desolação! E, provavelmente, multa. Só posso murmurar, para me desculpar: “Eu o joguei fora… sem me dar conta.” O fiscal, que também é um pouco filósofo, comenta: “Bem, se não estava se dando conta do que fazia, também não se pode dizer que o jogou fora. É como se o tivesse deixado cair.” Mas não estou disposto a aceitar esse álibi. “Desculpe, mas uma coisa é deixar o bilhete cair, outra é jogá-lo fora, mesmo que o tenha feito inadvertidamente.” O fiscal parece achar mais divertido discutir do que me aplicar a multa: “Veja bem, ‘jogar’ o bilhete é uma ação, algo diferente de deixar cair, que é só uma dessas coisas que acontecem. Quando alguém faz uma ação é porque quer fazê-la, não é mesmo? Em contrapartida, as coisas acontecem sem a gente querer. De modo que, como o senhor não queria jogar fora o bilhete, podemos dizer que na verdade o deixou cair.” Eu me rebelo contra essa interpretação mecanicista: “De jeito nenhum! Poderíamos dizer que deixei o bilhete cair se eu tivesse adormecido, por exemplo. Ou então se uma rajada de vento o tivesse arrancado da minha mão. Mas eu estava bem acordado, não havia vento e o que aconteceu foi que eu joguei o bilhete sem intenção.” “Ahá!”, diz o fiscal, batendo com o lápis em seu bloquinho, “se não tinha intenção, como sabe então que foi o senhor, exatamente o senhor, quem jogou fora? Porque ‘jogar’ uma coisa é fazer algo, e ninguém pode fazer algo se não se propõe fazê-lo.” “Pois sabe de uma coisa? Joguei a droga do bilhete fora porque me deu vontade!” Multa na certa.

A verdade é que há uma diferença entre o que simplesmente me acontece (esbarro a mão num copo e o derrubo na mesa quando vou pegar o sal), o que faço sem me dar conta e sem querer (o tal bilhete jogado pela janela!), o que faço sem me dar conta mas conforme uma rotina adquirida voluntariamente (enfiar os pés no chinelo ao me levantar da cama meio adormecido) e o que faço me dando conta e querendo (jogar o fiscal pela janela para que ele vá buscar o maldito bilhete). Parece que a palavra “ação” é um termo que só convém à última dessas possibilidades. Claro que também há outros gestos difíceis de classificar, mas que sem dúvida parecem qualquer coisa menos “ações”: por exemplo, fechar os olhos e levantar os braços quando alguém me atira alguma coisa no rosto ou procurar um apoio quando estou caindo. Não, decididamente uma “ação” é só o que eu não teria feito se não quisesse fazê-lo: chamo de ação um ato voluntário. O “falecido” fiscal, portanto, tinha razão…

Como saber, no entanto, se um ato é voluntário ou não? Por que, antes de realizá-lo, talvez eu delibere entre várias possibilidades e finalmente me decida por uma delas. Claro que não é o mesmo “decidir fazer alguma coisa” e “fazê-la”. “Decidir” é pôr fim a uma deliberação mental sobre o que eu realmente quero fazer. Porém, uma vez decidido, ainda tenho que fazê-lo. O que decido é o objetivo ou fim de minha ação, mas talvez não a própria ação. Por exemplo: decido pegar o copo e estico o braço para pegá-lo. O que eu realmente decidi fazer: pegar o copo ou esticar o braço? Minha deliberação teve a ver com o copo ou com meu braço? Se eu estico o braço e derrubo o copo, posso dizer que atuei ou não? Ou atuei “pela metade”?

A noção de “voluntário” também não é tão clara como parece. Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles imagina o caso de um capitão de navio que deve levar uma certa carga de um porto para outro. No meio da travessia despenca uma enorme tempestade. O capitão chega à conclusão de que só pode salvar o barco e a vida de seus tripulantes se jogar a carga pela borda para equilibrar a embarcação. De modo que ele a joga na água. Pois bem, ele a jogou porque quis? É evidente que sim, pois poderia não se ter livrado dela e arriscar-se a morrer. Mas é evidente que não, pois o que ele queria era levá-la até seu destino final, caso contrário teria ficado sossegado em casa, sem zarpar! De modo que a jogou querendo… mas sem querer. Não podemos dizer que a tenha jogado involuntariamente, nem que jogá-la fosse sua vontade. Às vezes poder-se-ia dizer que atuamos voluntariamente… contra a nossa vontade.

(…) “fiz voluntariamente tal ou tal coisa” significa: sem minha permissão, tal ou tal coisa não teria acontecido. É ação minha tudo o que não aconteceria se eu não quisesse que acontecesse. A essa possibilidade de fazer ou de não fazer, de dar o “sim” ou o “não” a certos atos que dependem de mim, é o que podemos chamar deliberdade. E é claro que, chegando à liberdade, não resolvemos todos os nossos problemas, mas tropeçamos em indagações mais difíceis ainda.

Seja como for, porque é tão importante para nós a questão da liberdade, seja para afirmá-la como arroubo entusiasmado e orgulhoso, seja para negá-la com não menor energia? O céptico David Hume, que era fundamentalmente determinista, sustentou que a idéia de liberdade é compatível com o determinismo porque não se refere à casualidade física mas à casualidade social. Temos necessidade de acreditar em certa medida na liberdade para poder atribuir cada um dos acontecimentos protagonizados por humanos a um sujeito responsável, que possa ser elogiado ou censurado – e castigado, se for o caso – por sua ação. A liberdade é imprescindível para estabelecer responsabilidades, porque sem responsabilidade não se pode articular a conveniência em nenhum tipo de sociedade. Mas esse ser livre não só é um motivo de orgulho como também de soçobra e até de angústia. Assumir nossa liberdade supõe aceitar nossa responsabilidade pelo que fazemos, inclusive pelo que tentamos fazer ou por algumas conseqüências indesejáveis de nossos atos.

Ser livre não é responder vitorioso “fui eu!” na hora da distribuição de prêmios, mas é também admitir “fui eu!” quando se procura o culpado por um malfeito. Para o primeiro sempre há voluntários, porém no segundo caso o mais comum é refugiar-se no peso esmagador das circunstâncias: o trapaceador de viúvas atribuirá seus delitos ao abandono precoce dos pais, às tentações da sociedade de consumo ou aos maus exemplos da televisão… ao passo que quem recebe o prêmio Nobel só falará de seu esforço diante do destino adverso e de seus méritos. Ninguém quer ser simplesmente reduzido ao catálogo de suas más ações: a quem nos repreende por uma grosseria, respondemos “não pude evitar, queira ver você no meu lugar, eu não sou assim, etc.”, tentando ao mesmo tempo transferir a culpa para a sociedade em que vivemos ou para o sistema capitalista, porém mantendo aberta a possibilidade de sermos limpos, desinteressados, valentes, melhores. Por isso a liberdade não é algo como um galardão, mas também uma carga, e muitas pessoas duvidosamente maduras – ou seja, pouco autônomas, pouco conscientes de si mesmas – preferem renunciar a ela e passá-la para um líder social que ao mesmo tempo tome as decisões e carregue o peso das culpas. (…)

Mas a questão da “responsabilidade” provém de muito antes. Na tragédia grega, por exemplo, a responsabilidade se transforma às vezes no destino inevitável do personagem, que – como acontece com Édipo nas tragédias de Sófocles Édipo rei e Édipo em Colona – tem que cumprir, mesmo sem querer nem saber, as ações à que está predestinado, mas ao mesmo tempo sem deixar de compreender os dispositivos voluntários que o enredam na máquina fatal. Nosso querer nos arrasta ao irremediável, mas depois o irremediável deve ser assumido como a parte cega de nosso querer: aceitar que devíamos ser culpados nos abre os olhos sobre o que somos e assim purifica o que podemos vir a ser. Os gregos não conheceram a noção de “liberdade” no segundo¹ e no terceiro² sentidos, portanto também não tiveram uma noção de responsabilidade realmente “personalizada”, ou seja, ligada à intenção subjetiva do agente e não à objetividade do fato realizado. A maldição do culpado recai sobre Édipo por crimes que ele ignora ter cometido (matar o pai, deitar-se com a mãe) e que depois deve assumir como parte do destino que lhe pertence… e ao qual ele pertence. Segundo Sófocles, o que nos torna responsáveis não é o que projetamos fazer nem o que fazemos efetivamente, e sim a reflexão sobre o que fizemos.

(…) Shakespeare – quem melhor esmiuçou os segredos contraditórios da liberdade em ação. (…) Macbeth, quando vacila na noite atroz antes de assassinar o rei Duncan, ponderando abalado a responsabilidade inevitável que cairá sobre ele. (…) Se o assassinato solucionasse todas as conseqüências e com sua cessação o êxito estivesse assegurado! (…) Mas neste caso somos julgados aqui mesmo; (…) Macbeth quer a ação (o assassínio de Duncan) e quer o que irá conseguir por meio dessa ação (o trono), mas não quer ficar vinculado para sempre à ação, ter que se responsabilizar por ela diante dos que lhe peçam prestação de contas ou extraiam a lição terrível de seu crime. Se apenas se tratasse de fazê-lo e isso fosse tudo, ele o faria sem escrúpulos; mas a responsabilidade é a contrapartida necessária da liberdade, seu avesso, talvez o próprio fundamento da exigência de liberdade: as ações devem ser livres para que alguém responda por cada uma delas. O sujeito é livre para fazê-las, embora não para desprender-se de suas conseqüências…

Sófocles ou Shakespeare costumam falar de  uma responsabilidade “culpada” e não simplesmente por gosto sensacionalista: o vínculo entre liberdade e responsabilidade torna-se mais evidente quando a primeira nos apetece e a segunda nos assusta. Ou seja, quando estamos diante de uma tentação. Em nossa época, são abundantes as teorias que pretendem nos desculpar do peso responsável da liberdade quando nos é fastidioso: o mérito positivo de minhas ações é meu, mas minha culpa eu posso dividir com meus pais, com a genética, com a educação recebida, com a situação histórica, com o sistema econômico, com qualquer uma das circunstâncias que não está em minhas mãos controlar. Todos nós somos culpados de tudo, logo ninguém é principal culpado de nada. Em minhas aluas de ética costumo colocar o seguinte caso prático, que adorno conforme a inspiração do dia. Suponhamos uma mulher cujo marido empreende uma longa viagem; a mulher aproveita essa ausência para ir ao encontro de um amante; de um dia para outro, o marido desconfiado anuncia sua volta e exige a presença da esposa no aeroporto para recebê-lo. Para chegar ao aeroporto, a mulher precisa atravessar um bosque onde se esconde um terrível assassino. Assustada, ela pede ao amante que a acompanhe, mas ele se nega, pois não quer enfrentar o marido; então pede proteção ao único guarda que há no povoado, que também diz que não pode ir com ela, pois deve atender com o mesmo zelo aos outros cidadãos; recorre a diversos moradores do povoado, mas todos se recusam, alguns por medo, outros por comodismo. Finalmente ela faz a viagem sozinha e é assassinada pelo criminoso do bosque. Pergunta: Quem é responsável por sua morte? Costumo receber respostas para todos os gostos, conforme a personalidade do interrogado. Há quem culpe a intransigência do marido, a covardia do amante, a falta de profissionalismo do guarda, o mau funcionamento das instituições que nos prometem segurança, a falta de solidariedade dos moradores, até a má consciência da própria assassinada… Poucos respondem o óbvio: que o Culpado (com maiúscula de principal responsável pelo crime) é o próprio que a mata. Sem dúvida, na responsabilidade de cada ação intervêm numerosas circunstâncias que podem servir de atenuantes e às vezes diluir ao máximo a culpa como tal, mas nunca ao ponto de “desligar” totalmente do ato o agente que o realiza intencionalmente. Compreender todos os aspectos de uma ação pode levar a perdoá-la mas nunca a apagar completamente a responsabilidade do sujeito livre: caso contrário, já não se trataria de uma ação mas de um acidente fatal. No entanto não será justamente a própria liberdade o acidente fatal da vida humana em sociedade?

Uma das reflexões mais enigmaticamente sugestivas sobre o vínculo entre ação e responsabilidade é a que se encontra no “Bhagavad Gita”, ou “Canção do Senhor”, um longo poema dialogado composto provavelmente no século III a. C., incluído no Mahabharata, a grande epopéia hindu. O herói Arjuna avança em seu carro de guerra contra as tropas inimigas e dispõe as flechas com que irá exterminar todos os que puder. Mas entre os adversários que deve tentar matar ele distingue vários parentes e amigos (trata-se de uma guerra civil, fratricida) e isso o angustia a tal ponto que considera seriamente abandonar o combate. Então o auriga que dirige seu carro de combate, e que não é outro senão o deus Krishna, identifica-se e lhe faz uma preleção sobre seu dever. Segundo Krishna, o escrúpulo que Arjuna sente diante da tarefa de matar é infundado, porque “nem dos mortos nem dos vivos se compadecem os sábios”. No mundo das aparências enganosas em que nos movemos, o verdadeiramente substantivo (Brahma, o Absoluto incriado e imorredouro) não pode ser destruído por dardos nem modificado por nenhuma operação humana. A cada um cabe atuar como o que é – no caso de Arjuna, que é um guerreiro, lutando no campo de batalha -, mas a sabedoria consiste em não ter nenhum apego aos frutos ou conseqüências da ação: “Na ação está teu empenho, não em seus frutos, jamais: não tenhas como fim os frutos da ação nem tenhas apego à inação.” Todos somos obrigados a atuar pelas circunstâncias naturais em que transcorre nossa vida: “Ninguém, nem por um momento, jamais está sem agir; é levado à Ação, mau grado seu, pelos fios nascidos da Natureza.” O segredo está em agir como se não se agisse, em realizar as ações que nos cabem sem deixar que nosso ânimo se perturbe pelo desejo, pela ira, pelo temor ou pela esperança. “Por isso sem apego sempre a Ação que há de fazer-se faz; se realiza a Ação sem apego, o mais alto alcança o homem.”4

Para nossas mentalidades cristãs (por mais que nos consideremos leigos ou até ateus), esse deus que tranqüilamente recomenda ao homem que pratique a matança como se não estivesse fazendo nada – ou como se estivesse fazendo qualquer outra coisa! – é difícil de entender. A própria idéia de que devemos resignar-nos à ação como parte da ordem da natureza mas nos entregando a ela com pleno “desinteresse” pelo que promete é contrária a tudo o que significa “projeto”, “intenção”, assim como o “êxito” ou “fracasso” do que é empreendido. Mas o peso da responsabilidade da ação – que não é mero projeto ocidental, uma vez que o próprio Arjuna o experimenta quando está prestes a massacrar seus parentes, tanto quanto Macbeth antes de se decidir pelo assassinato de Duncan – alivia-se com o chocante raciocínio de que é preciso perpetrar o evitável como se fosse inevitável. No fundo, atuar “conscientemente” nada mais é do que compreender de que modo todos nós somos atuados pelo aparente e reconhecer nossa identidade com o que sempre é mas nunca faz. Podemos encontrar paralelismos entre essa perspectiva oriental e a forma de pensar dos estóicos ou de Spinoza, embora premissas semelhantes desemboquem em regras práticas muito diferentes: no pensamento ocidental, a consideração objetiva da rede causal dentro da qual atuamos permite “entender” melhor a ação, mas nunca “nos desinteressar” dela, isto é, de seus objetivos e conseqüências. Assim é possível compreender melhor as respeitosas repreensões que um grande admirador da sabedoria hindu, Octavio Paz, formula (em seu livro Vislumbres de la India) contra essa doutrina do Bhagavad Gita: “O desprendimento de Arjuna é um ato íntimo, uma renúncia a si mesmo e a seus apetites, um ato de heroísmo espiritual e que, no entanto, não revela amor ao próximo. Arjuna não salva ninguém exceto a si mesmo… o mínimo que se pode dizer é que Krishna prega um desinteresse em filantropia.”

Ser livre é responder por nossos atos e sempre se responde diante dos outros, com os outros como vítimas, como testemunhas, e como juízes. No entanto, todos parecemos buscar “algo” que nos alivie a pesada carga da liberdade. Não podemos supor que nossa natureza humana seja livre mas que dentro dessa liberdade “necessária” atuamos tão inocentemente como crescem as plantas ou se desenvolvem os animais? Se somos livres “por natureza”, será que a própria natureza não marca o âmbito de eficácia de nossa liberdade? Em que se distingue o irremediavelmente livre de nossa condição natural do simplesmente irremediável de outros seres naturais? Talvez um indício de resposta nos seja oferecido por este belo poema da polonesa Wistlawa Szymborska:

A águia ratoeira não costuma censurar-se nada.
Carece de escrúpulos a pantera negra.
As piranhas não duvidam da honradez de seus atos.
E a cascavel à constante auto-aprovação se entrega.
A lagosta, o caimã, a triquina e a mutuca
vivem satisfeitos por ser como são.
{…} No terceiro planeta do Sol,
a consciência limpa e tranqüila
é um sintoma primordial de animalidade.³

Fonte: http://biucsproject.org/blog/justica-universal/liberdade-em-acao/

O homem parece ser o único animal que pode ficar descontente consigo mesmo: o arrependimento é uma das possibilidades sempre abertas à autoconsciência do agente livre. Mas, se somos naturalmente livres, como podemos nos arrepender daquilo que fazemos com nossa liberdade natural? Como pode o desenvolvimento do que naturalmente somos trazer-nos conflitos íntimos? Devemos então, agora, elucidar qual é nossa natureza e que sentido tem a noção de “natureza” para nós, os animais capazes de consciência pesada.

Seja mais você

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Antes de se comprometer com qualquer pessoa ou causa, é melhor conhecer a si mesmo para tomar boas decisões na vida

Por Sally Kempton      Tradução: Greice Costa      Fotos: Ilustração: Heitor Yida

Eu estava nos meus 30 anos antes de encontrar algo que realmente valesse a pena para me comprometer. Até então, eu era o tipo de pessoa que sentava no fundão da sala, perto da porta, caso quisesse sair. Quando me casei, manipulei os votos de maneira que não houvesse menção ao “até que a morte nos separe”. Como tantas pessoas nessa fase, fiquei esperando algo que valesse a pena para me jogar de cabeça de todo o coração.

Quando encontrei, minha vida mudou tão radicalmente que às vezes imagino que já tive duas vidas. Uma, como meio buscadora e vivendo superficialmente em jornalismo e monogamia séria. A outra, como uma praticante espiritual séria, focada. Monja, discípula, professora. A diferença entre as duas vidas é o compromisso total: primeiro para com meu próprio desenvolvimento espiritual. Segundo, para com um professor específico e para com meus votos de monja e, finalmente, para com o servir à verdade.

O compromisso com o meu professor foi o mais dramático. Ele me rasgou da cultura do meu estilo de vida de vanguarda no eixo Nova York-Califórnia. Mergulhei em uma cultura devocional de ashram em que as disciplinas e protocolos eram radicalmente estranhos. Nada era confortável para o meu ego. Nos primeiros anos, tive de aprender não só as disciplinas de Yoga, mas também a mais rigorosa disciplina de viver em uma comunidade espiritual. Duas coisas me ajudaram a seguir adiante. A primeira foi o amor pelo meu professor. A segunda foi a decisão, levada como o voto, de que eu não desistiria. Esta simples decisão de ficar tornou-se a base de todo o progresso que fi z na minha vida espiritual.

Oito anos se passaram e meu professor, alguns meses antes de morrer, iniciou-me como sannyasin (o voto indiano de monge), junto com um grupo de discípulos. Ser uma swami, uma sannyasin em uma ordem indiana, tradicionalmente requer um voto permanente, não é como os votos de monges budistas, que podem durar por um período limitado. Era algo grande para os olhos do mundo, mas para mim era uma extensão do comprometimento com o meu professor.

Fiquei por mais 20 anos. Nesse período, aconteceram situações que me levaram a sair, mas também me ensinaram um desapego radical. Houve sacrifício, mas também muitas oportunidades para aprender, servir aos outros, muita alegria.

Mas, no fim dos anos 90, algo mudou para mim. Comecei a sentir que seria mais útil fora do ashram do que dentro. E pensava: como saber que é a hora de terminar um compromisso que se assume por metade da vida?

 

Por que Comprometer-se?

O compromisso tem dois lados distintos: ele é prérequisito para a profundidade. Sem compromisso, a vida é um vale-tudo, relacionamentos são apenas encontros casuais e a prática é meramente superficial. Você nunca terá a mesma intimidade em um relacionamento de três meses que consegue em um casamento de dez anos. Não há como um retiro de Yoga e pranayama de uma semana dar o tipo de poder e abertura contínua que você ganha em sua prática diária. Você não consegue escrever um livro, criar uma criança ou aprender uma língua sem estar comprometido de coração. Nossa capacidade de compromisso nos possibilita o progresso.

Mas não podemos falar sobre compromisso sem reconhecer o seu inegável lado sombrio: como ele pode mantê-lo estagnado, pode tornar-se uma zona de conforto que o impede de fazer mudanças necessárias e como pode tornar-se uma desculpa para não fazer o trabalho de se desenvolver internamente. Não há dúvida de que certos compromissos, por exemplo, com uma criança, são inegociáveis. Mas muitos, especialmente nas áreas de carreira, relacionamentos e práticas espirituais, não.

Quando a vida perde o compromisso, pode tornar-se uma devoradora, um buraco negro que engole alegria, amor, criatividade. Estabilidade vira estagnação. Quando o objetivo que você perseguiu por anos parece bobo, quando o seu casamento parece preso a padrões indesejáveis, quando o coração parece morto, o primeiro passo é se fazer algumas perguntas sérias, como “Será que estou evitando o trabalho necessário para atingir o próximo passo?”

Não há fórmulas para responder a perguntas assim, porque aqui é preciso conhecer-se, conhecer o seu coração e equilibrar suas necessidades com as necessidades dos outros.

Mas eu vim a reconhecer certos sinais de que o instinto de terminar um compromisso precisa ser honrado. Pode ser simplesmente a sensação de que um relacionamento ou projeto já está morto. Tudo na vida tem ciclos de nascimento, crescimento, declínio e morte. Quando algo parece morto, isso precisa ser observado. Se não está, a sensação de morte começa a se espalhar por outros aspectos da sua vida. Se está pronto para explorar e ouvir a mensagem disso, começará a descobrir o que está por trás disso, e o que precisa fazer.

Talvez você tenha desejos profundos que não estão sendo realizados. Talvez você veja que a situação em que está alimenta seus medos ou limite os seus talentos. Talvez você esteja vivendo o que é conhecido como um chamado do que o poeta Rumi denominou como “o poder do que você realmente ama”. Leva tempo para reconhecer isso, então geralmente recomendo sentar-se com a situação o tempo suficiente para trazer o nível emocional, o nível do coração do seu ser, junto com o nível mental, prático e analítico.

Sabendo Quando Abrir Mão

Eu me peguei pensando em tudo isso quando ouvi minha amiga Laura se questionando se deveria terminar o casamento. Ela e o marido, Todd, são artistas, e ele foi o maior professor e crítico de Laura. Eles têm dois filhos, uma casa em Nova York e uma prática séria de Yoga e meditação. Então, quando Laura percebeu que estava se sentindo em uma armadilha no casamento, sua primeira reação foi voltar a se comprometer consigo mesma.

Foi ao terapeuta e fez o que pôde para se distanciar desses pensamentos, mas a sensação de que o casamento ia mal não passava.

Ela explorou esse sentimento na análise e ganhou consciência de um chamado que parecia demandar uma mudança na maneira como estava vivendo. E pediu a separação a Todd. Ele prometeu que faria tudo que pudesse para manter o casamento. Não só pelas crianças, mas porque amava e dependia de Laura.

Eles iniciaram sessões de terapia para casais, e nelas Laura revelou que por anos viveu sob o medo das críticas de Todd. Todd oscilava entre estágios de raiva e julgamento, e concordou em observar e mudar seu comportamento. Laura concordou em manter em suspenso a decisão do divórcio.

Alguns meses depois, os dois atingiram um nível de honestidade e intimidade que nunca tiveram. Todd começou a tratar Laura com igualdade e entrou em seu próprio processo de auto-observação.

Mas Laura estava novamente sentindo-se morta por dentro, e cada vez mais certa de que seu crescimento espiritual demandava um tipo de autonomia que ela não encontraria no casamento.

Minha reação à decisão de Laura foi bem parecida com a de Todd. Por quê? Mas eu também tinha feito algo parecido – escolhi sair de uma estrutura tradicional quando ficou claro para mim que não fazer isso traria estagnação ao meu crescimento espiritual.

Onda de Mudança

Há 60 anos, muitos poucos de nós consideravam que o crescimento espiritual era uma razão válida para abandonar um casamento ou um emprego.

Nossos tempos oferecem oportunidades sem igual para mudar nossos níveis de consciência. Há uma nova e inegável revolução espiritual acontecendo na nossa sociedade pós-industrial.

O que acontece com nosso comprometimento quando tudo ao redor está mudando? O que significa assumir compromissos de forma realista e, acima de tudo, mantê-los? Como navegamos com integridade no buraco entre o que as tradições culturais nos dizem o que fazer e a realidade do que a nossa jornada interior pede? E como saber quando nosso desejo de mudança vem da alma ou é apenas escapismo?

Essas questões exigem uma autopesquisa profunda, em que observamos com honestidade nossos desejos e motivações. Para esclarecer nossas razões, devemos não apenas reconhecer nossos egos escondidos e desejos básicos, mas também descobrir onde nossos compromissos inegociáveis ficam. Frequentemente, não ficam onde achamos que estão. Na minha própria busca pela integridade no comprometimento, continuamente fiquei de frente com dois fatos simples mas difíceis de notar. Primeiro, não conseguimos nos comprometer com nada se não sabemos onde nossos verdadeiros valores estão. Segundo, uma vez que nos encontramos no caminho espiritual, um caminho de transformação yoguica, temos de aceitar que nenhum de nossos compromissos interpessoais ou intrapessoais se sentirá exatamente adequado até que ganhemos claridade sobre nossos metacompromissos.

O Que é um Metacompromisso?

É um voto que você faz com sua própria alma, com aquela parte do seu ser que fica sob a sua personalidade, e que se conecta com o eterno. A alma é a sua essência. Nas tradições indianas, a alma é chamada de jivatman – o eu individual ou centelha de consciência. Se um compromisso é verdadeiramente um pacto de alma, você descobrirá que ele pode sobreviver a qualquer tipo de caos e permanecer no lugar até quando seus compromissos externos se dissolvem à sua volta. Estes aqui são alguns exemplos de metacompromissos:

• Amar em todas as circunstâncias

• Ser útil

• Fazer com que transformação e crescimento sejam sua prioridade

• Descobrir o que é real

• Fazer comunidade

• Fazer beleza

• Ter compaixão

• Ajudar a fazer um mundo melhor

• Ser o melhor que puder

• Promover justiça

Você verá imediatamente que metacompromissos são relacionados a valores, princípios e intenções. Como uma intenção, um metacompromisso precisa, em algum ponto, ser estabelecido formalmente. Mas um compromisso vai um passo além de uma intenção porque é mais próximo de um voto pessoal.

Um metacompromisso permanece independentemente de como as pessoas e situações vão e vêm na sua vida, porque ele é a chave de sua integridade pessoal. Conhecer e manter seus metacompromissos é o que faz você verdadeiro para consigo mesmo e para com os outros. Seus relacionamentos, trabalho e compromissos diários mudam. Mas metacompromissos não, mesmo que a expressão deles possa sofrer metamorfoses na sua vida. No fim das contas, seus metacompromissos definem você.

Aqui é importante entender que um metacompromisso não é o mesmo que uma tendência inconsciente. Nossas tendências inconscientes vêm de nossas fraquezas pessoais, de padrões limitadores que se alojam no nosso corpo sutil. Nossos metacompromissos, por sua vez, são expressões de nossas aspirações mais elevadas, de nosso senso de alma mais profundo. Elas vêm do que às vezes chamamos de “eu autêntico”. O eu autêntico inclui o ego, mas também contém a capacidade de observar e transcender o ego. Quando você está no seu eu autêntico, pode reconhecer, honrar e trabalhar com seu temperamento, suas habilidades, dons e traumas únicos. Você tem a clareza para reconhecer e agir do alto dos seus mais elevados valores – ainda que sem negar as tendências e preferências que ajudam a criar a sua perspectiva particular, o seu jeito único de ser e estar no mundo.

Laura, por exemplo, tem uma tendência inconsciente de escapar de restrições. Mas quando começou a observar seus metacompromissos, percebeu que estes, os pilares de sua integridade pessoal, eram honestidade e amor. Sua honestidade demandava que ela reconhecesse que não seguir o caminho à mostra cortaria sua força vital. Seu amor demandava que ela seguisse o processo de maneira que minimizasse a dor na família.

Quando você conhece os seus metacompromissos, tem critérios para equilibrar decisões de vida maiores e menores. Você está comprometido com uma vida de expressão criativa? Se sim, não deveria pensar em se certificar como professor de um sistema de Yoga rígido (ainda que estudar/praticar esse sistema possa ser valioso, especialmente se o ajuda a disciplinar os aspectos mais selvagens da sua criatividade). Seu compromisso está em aventura, vitalidade? Então provavelmente você não será feliz com alguém cujo metacompromisso seja uma vida calma e quieta. Você quer um crescimento espiritual? Então provavelmente necessitará se comprometer com uma disciplina diária que o ajudará a construir a profundidade na sua prática.

Um metacompromisso torna-se vital por manter um curso estável em direção à sua integridade pessoal. À medida que você cresce e muda, pode descobrir que a maneira como expressa o compromisso se transformará.

Por exemplo, o compromisso para uma prática regular pode começar com a decisão de fazer aula três vezes por semana ou de meditar por 20 minutos todo dia. Se você entender que o compromisso é com a prática em si e não com o tempo que dedica a ela, pode ser flexível com os horários sem abrir mão de sua regularidade. É o mesmo com outras partes da sua vida.

Se seu compromisso é com gentileza e compaixão, então mesmo quando termina com seu namorado, pode fazer isso sem feri-lo a ponto de não conseguir manter uma amizade. Quanto mais você conhece seus metacompromissos, mais fácil fica negociar com as mudanças externas. Eles o ajudam a ficar estável mesmo quando as circunstâncias estão correndo para lados inesperados ou indesejados.

Quando encarei a questão de sair ou não da organização em que estava, consegui confiar na minha própria decisão de sair só depois que esclareci para mim os meus compromissos. Conheci meu metacompromisso essencial, que era descobrir o Real. O segundo era servir, o que ia além de servir àquela organização. Porque eu sabia dos meus metacompromissos, consegui me mover pela decisão muito difícil de deixar a organização, segura de que estava sendo verdadeira para com meu voto mais profundo.

Quando Laura e Todd esclareceram seus metacompromissos, perceberam que um compromisso essencial dos dois era o bem-estar de suas crianças. Igualmente forte era o compromisso de amar um ao outro, independentemente de qualquer relação formal. E assim perceberam que esses dois metacompromissos não seriam destruídos com o divórcio.

A única coisa certa na vida é a mudança. Um compromisso, para servir a seu propósito mais profundo, precisa estar forte para resistir às mudanças. Quando você conhece seus metacompromissos, quando consegue estabelecê-los e viver com eles, sua vida tem a integridade e a estabilidade que estão no coração do Yoga. Seu relacionamento pode se dissolver, seu trabalho pode mudar, seu caminho pode se transformar. Mas a profundidade que o compromisso traz nunca é perdida.

Decida Melhor Descobrindo Compromissos Essenciais

Quando você quiser descobrir seus próprios metacompromissos, precisará observar a si e a sua vida com distanciamento. Suposições como “Se eu amo uma pessoa, tenho de viver com ela” ou “pessoas espirituais não ligam para bens materiais e dinheiro” podem interferir na sua habilidade de descobrir o que é verdadeiro para você. O próximo passo é ser honesto consigo em uma autopesquisa. Comece observando os compromissos que você assumiu na vida. Quantos deles foram assumidos de coração? Ou seja, quantos deles foram levados por valores da sua cultura ou por aquelas crenças não examinadas antes de começar este exercício?

Agora olhe honestamente para o que você valoriza neste ponto da vida. Para determinar seus reais valores, pergunte-se:

O que estou fazendo nos tempos em que fico realmente mais feliz?

Quais dos meus dons significam mais para mim? O que parece mais “eu”?

O que eu mais amo em mim?

O que os outros amam em mim?

Em que eu sou bom?

O que realmente importa a ponto de eu me sacrificar por isso? Amizade? Trabalho criativo? Paz interior? Gentileza? Criar mudança positiva? Ajudar pessoas? Saber a verdade?

Isso posto, quais são os três metacompromissos que posso assumir exatamente agora – compromissos que posso manter independentemente de onde e com quem eu esteja? Quais desses são apropriados para aprofundar minha relação com a vida?

Nesse processo, você descobrirá muito sobre si, sobre quem é e quais são os seus valores. Acima de tudo, você começará a ver o que significa para você viver com mais profundidade e autenticidade. Assumir compromissos e mantê-los é fundamental para se respeitar, para a nossa habilidade em repousar sobre nossa própria estabilidade. Ainda que os compromissos definam a sua vida, você quer estar certo de que os está assumindo do lugar mais profundo que pode se encontrar. Estes são os compromissos que você pode sustentar. Estes são os que você manterá.

Fonte: http://www.yogajournal.com.br/bem-estar/seja-mais-voce/3/