Lévy: ‘Não sou contra o ativismo de sofá’

Por Redação Link

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Em entrevista pelo Twitter, filósofo francês diz que petições online são uma manifestação legítima de política

Por Bruno Lupion, do Política Estadão

—-SÃO PAULO – Idealizador do termo “inteligência coletiva” e autor de livros sobre cibercultura desde a década de 90, o filósofo francês Pierre Lévy afirmou, em entrevista ao Estado nesta segunda-feira, 11, que as petições online são expressões legítimas da vontade dos cidadãos.

Ele nega que esse tipo de mobilização online seja menos legítima do que as manifestações tradicionais, como protestos na rua, e afirma ser necessário investir em alfabetização digital para elevar o nível de debate na internet.

Apesar do crescente controle da rede, tanto por governos autoritários como pelos democráticos, o professor da Universidade de Ottawa, no Canadá, acredita haver mais liberdade de expressão com a rede do que sem ela.

Lévy também prevê que o poder de reunir dados e analisá-los vai desempenhar um papel fundamental na vida política do futuro.

Confira abaixo a íntegra da entrevista, concedida pelo Twitter. Em suas respostas, Lévy fez links para outros documentos que embasam suas ideias, reproduzidos abaixo.

Qual a relevância dos abaixo-assinados online para pressionar os parlamentares?
Eu penso que seja tão relevante como os abaixo-assinados escritos. Uma petição é uma petição. Uma petição online só é mais fácil de organizar!

Sendo mais fácil, o sr. não acha que há um risco de promover o “ativismo de sofá” nesse tipo de campanha?
Eu não sou contra o ativismo de sofá. Qualquer forma que o cidadão use para se expressar é positiva.

Você vê aspectos da democracia direta nesse tipo de movimento?
Não. Democracia direta ocorre quando a decisão está nas mãos das próprias pessoas. Eu prefiro ver os abaixo-assinados como formas de expressão.

Essas ferramentas online também não podem dar voz e força à intolerância e grupos que estimulam o ódio? Como lidar com isso?
Você está certo. Essas ferramentas online podem ser utilizadas pelas forças da escuridão e do ódio, e elas são! Não há outra forma de lidar com isso além de promover educação e alfabetização digital. E nós devemos também combater as má ideias online e offline.

Discussões na internet e comentários de notícias sempre parecem tender à difamação e agressão recíproca. Por quê?
Lembre que, na história, discursos de ódio floresceram também na imprensa e em jornais. Não é uma especificidade da internet. Isso também não é exclusividade do online: polêmicas sempre existiram. Veja, por exemplo, as propagandas negativas na TV! Pessoas responsáveis devem promover uma conversa civilizada, em vez de demonizar o outro.

Os governos pelo mundo estão dando uma resposta à altura a essas novas formas de engagamento político?
Eu acho que há um crescente senso da importância da esfera pública digital. Em geral, há umamudança no debate público em direção ao mundo digital. De um lado, as pessoas podem debater e se expressar de forma muito mais eficiente com ferramentas digitais. Por outro lado, governos podem hoje ser muito mais transparentes, e os cidadãos precisam exigir essa transparência.

Há um risco de aumento de controle da internet pelos governos?
Claro! Em primeiro lugar, ditaduras, como China, Irã, etc, fazem censura e vigilância de seus oponentes. Aliás, os serviços de inteligência de todos os países tentam analisar os dados criados pelas pessoas . Porém, de forma geral, há muito mais liberdade de expressão com a internet do que sem ela.

As futuras revoluções serão tuitadas?
As futuras revoluções… E as futuras contra-revoluções! Eu anuncio a ciberdemocracia há mais de dez anos. A evolução política em torno do globo provou que minhas previsões estavam certas.

Quais serão os próximos passos da ciberdemocracia?
Primeiro, uma melhora na inteligência coletiva online, uma inteligência coletiva mais reflexiva, mais hábil para conhecer a si mesma. Depois, uma melhor transparência dos governos, como justificativas e visualização das consequências das decisões orçamentárias.

É isso, professor. Você gostaria de dizer algo mais sobre o assunto?
Sim, eu acho que o domínio dos dados e da análise dos dados vai desempenhar um papel fundamental na vida política do futuro

Fonte: http://blogs.estadao.com.br/link/pierre-levy-nao-sou-contra-o-ativismo-de-sofa/

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A diferença entre UX e UI – explicados com cereais

Já conheceu alguém que usa UX e UI? Ed Lea (ilustrador e Design Gráfico) criou um infográfico fotográfico bem explicativo, para definir visualmente as diferenças entre a experiência do usuário e design de interface e como eles se relacionam com o produto.

Quando escola, empresa e jovem não se entendem

No mercado de trabalho, existe uma incômoda conta que não bate. De um lado, os empregadores, cada vez mais exigentes, sofrem com a escassez de profissionais aptos a desempenhar funções específicas. De outro, escolas formam trabalhadores para exercer atividades que não têm boa empregabilidade, o que deixa 75 milhões de jovens desempregados pelo mundo. Para tentar entender o que chamou de “crise da educação para o emprego”, a McKinsey fez um estudo global, o Educação para o Trabalho: Desenhando um Sistema que Funcione, em que entrevistou 4.500 jovens, 2.700 empregadores e 900 instituições de ensino de nove países. Nele, a consultoria traz seis grandes conclusões e aponta a capacitação por meio de Moocs e de jogos como um dos caminhos possíveis para que escolas, empresas e jovens passem a falar a mesma língua.

“Para enfrentar o problema do desemprego juvenil, dois pilares fundamentais são necessários:
 o desenvolvimento de competências e a criação de empregos. Este relatório tem como foco o desenvolvimento de competências, com especial atenção aos mecanismos que conectam educação e trabalho”, afirmam os autores no trabalho. Com essa missão, ao fazer as mesmas perguntas para empregadores, jovens e instituições de ensino, o estudo chegou à primeira grande conclusão: esses três grupos vivem em universos paralelos, uma vez que têm percepções muito diferentes dos mesmos assuntos. Um dos exemplos citados no estudo está o fato de 39% das instituições de ensino dizerem que a evasão dos cursos se devem à dificuldade das aulas, enquanto apenas 9% dos jovens atribuírem a desistência a esse fator.

 

crédito MNSTUDIO / Fotolia.comPesquisa global da McKinsey mostra a falta de sintonia entre empregadores, jovens e instituições de ensino

 

“Muitos atores trabalham em caminhos paralelos em assuntos comuns e não entendem a necessidade de ver isso como um sistema”, diz Diane Farell, diretora da McKinsey e uma das autoras do estudo, no vídeo de divulgação do trabalho. Assim, as próximas duas conclusões apresentadas dizem respeito às disfunções do sistema que une educação e trabalho, que acabam fazendo com que ele seja ineficiente para todos os envolvidos. Entre os obstáculos que impedem uma aproximação mais efetiva estão o custo dos cursos de capacitação e a falta de acesso, por parte dos alunos, a uma aprendizagem prática.

Apesar do cenário sombrio de desemprego juvenil pelo mundo, o estudo tem também boas notícias. “Nós vimos, sim, casos de sucesso. Observamos um ponto em comum em todas as histórias bem sucedidas [de integração da educação e do trabalho]: quando instituições de ensino decidem fazer parte do mundo dos empregadores e quando os empregadores decidem entrar no mundo das instituições de ensino”, afirma Mona Mourshed, diretora da consultoria e também uma das autoras do estudo. “Nos melhores programas, empregadores e instituições de ensino trabalham com seus alunos mais cedo e mais intensamente”, dizem os autores.

Entre as boas práticas encontradas pelos pesquisadores no mundo, as que se mostraram mais escaláveis eram aquelas que contavam com o auxílio da tecnologia. “Algumas vezes as instituições de ensino enfrentam dificuldades para aumentar a escala de suas operações devido a restrições internas de recursos. Por exemplo, a disponibilidade de educadores talentosos pode ser baixa ou variável (…). Ultrapassar essas barreiras requer uma solução que não só tenha baixo custo, mas também que assegure um nível consistente de qualidade. Tecnologia está começando a oferecer algumas respostas”, diz o estudo, que cita os Moocs (para capacitação) e os jogos “sérios” (para treinamento com simulações) como exemplos de com se pode levar formação a um custo baixo a funcionários.

Confira, a seguir, um infográfico com as principais conclusões do estudo.

Principais resultados da pesquisa McKinsey sobre jovens e emprego

Por que as crianças francesas não têm Deficit de Atenção?

Marilyn Wedge, Ph.D

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Nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e estão sendo tratadas com medicamentos. Na França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como é que a epidemia de TDAH, que tornou-se firmemente estabelecida nos Estados Unidos, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?

TDAH é um transtorno biológico-neurológico? Surpreendentemente, a resposta a esta pergunta depende do fato de você morar na França ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os psiquiatras pediátricos consideram o TDAH como um distúrbio biológico, com causas biológicas. O tratamento de escolha também é biológico – medicamentos estimulantes psíquicos, tais como Ritalina e Adderall.

Os psiquiatras infantis franceses, por outro lado, vêem o TDAH como uma condição médica que tem causas psico-sociais e situacionais. Em vez de tratar os problemas de concentração e de comportamento com drogas, os médicos franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando o sofrimento da criança; não o cérebro da criança, mas o contexto social da criança. Eles, então, optam por tratar o problema do contexto social subjacente com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de ver as coisas, comparada à tendência americana de atribuir todos os sintomas de uma disfunção biológica a um desequilíbrio químico no cérebro da criança.

Os psiquiatras infantis franceses não usam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais infantis utilizado pelos psiquiatras americanos. Eles não usam o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM. De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação alternativa, como uma resistência à influência do DSM-3. Esta alternativa foi a CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000. O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas.

Na medida em que os médicos franceses são bem sucedidos em encontrar e reparar o que estava errado no contexto social da criança, menos crianças se enquadram no diagnóstico de TDAH. Além disso, a definição de TDAH não é tão ampla quanto no sistema americano, que na minha opinião, tende a “patologizar” muito do que seria um comportamento normal da infância. O DSM não considera causas subjacentes. Dessa forma, leva os médicos a diagnosticarem como TDAH um número muito maior de crianças sintomáticas, e também os incentiva a tratar as crianças com produtos farmacêuticos.

A abordagem psico-social holística francesa também permite considerar causas nutricionais para sintomas do TDAH, especificamente o fato de o comportamento de algumas crianças se agravar após a ingestão de alimentos com corantes, certos conservantes, e / ou alérgenos. Os médicos que trabalham com crianças com problemas, para não mencionar os pais de muitas crianças com TDAH, estão bem conscientes de que as intervenções dietéticas às vezes podem ajudar. Nos Estados Unidos, o foco estrito no tratamento farmacológico do TDAH, no entanto, incentiva os médicos a ignorarem a influência dos fatores dietéticos sobre o comportamento das crianças.

E depois, claro, há muitas diferentes filosofias de educação infantil nos Estados Unidos e na França. Estas filosofias divergentes poderiam explicar por que as crianças francesas são geralmente mais bem comportadas do que as americanas. Pamela Druckerman destaca os estilos parentais divergentes em seu recente livro, Bringing up Bébé. Acredito que suas idéias são relevantes para a discussão, por que o número de crianças francesas diagnosticadas com TDAH, em nada parecem com os números que estamos vendo nos Estados Unidos.

A partir do momento que seus filhos nascem, os pais franceses oferecem um firme cadre –que significa “matriz” ou “estrutura”. Não é permitido, por exemplo, que as crianças tomem um lanche quando quiserem. As refeições são em quatro momentos específicos do dia. Crianças francesas aprendem a esperar pacientemente pelas refeições, em vez de comer salgadinhos, sempre que lhes apetecer. Os bebês franceses também se adequam aos limites estabelecidos pelos pais. Pais franceses deixam seus bebês chorando se não dormirem durante a noite, com a idade de quatro meses.

Os pais franceses, destaca Druckerman, amam seus filhos tanto quanto os pais americanos. Eles os levam às aulas de piano, à prática esportiva, e os incentivam a tirar o máximo de seus talentos. Mas os pais franceses têm uma filosofia diferente de disciplina. Limites aplicados de forma coerente, na visão francesa, fazem as crianças se sentirem seguras e protegidas. Limites claros, eles acreditam, fazem a criança se sentir mais feliz e mais segura, algo que é congruente com a minha própria experiência, como terapeuta e como mãe. Finalmente, os pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não é considerada abuso na França.

Como terapeuta que trabalha com as crianças, faz todo o sentido para mim que as crianças francesas não precisem de medicamentos para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle no início de suas vidas. As crianças crescem em famílias em que as regras são bem compreendidas, e a hierarquia familiar é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos, enquanto que no estilo de família americana, a situação é muitas vezes o inverso.

Fonte: http://equilibrando.me/2013/05/16/por-que-as-criancas-francesas-nao-tem-deficit-de-atencao/

Reforme o sistema de doutorado ou feche-o

Reform the PhD system or close it down

There are too many doctoral programmes, producing too many PhDs for the job market. Shut some and change the rest, says Mark C. Taylor.

Mark Taylor

The system of PhD education in the United States and many other countries is broken and unsustainable, and needs to be reconceived. In many fields, it creates only a cruel fantasy of future employment that promotes the self-interest of faculty members at the expense of students. The reality is that there are very few jobs for people who might have spent up to 12 years on their degrees.

Most doctoral-education programmes conform to a model defined in European universities during the Middle Ages, in which education is a process of cloning that trains students to do what their mentors do. The clones now vastly outnumber their mentors. The academic job market collapsed in the 1970s, yet universities have not adjusted their admissions policies, because they need graduate students to work in laboratories and as teaching assistants. But once those students finish their education, there are no academic jobs for them.

“Most doctoral programmes conform to a model defined in the middle ages.”

 

Universities face growing financial challenges. Most in the United States, for example, have not recovered from losses incurred on investments during the financial fiasco of 2008, and they probably never will. State and federal support is also collapsing, so institutions cannot afford to support as many programmes. There could be an upside to these unfortunate developments: growing competition for dwindling public and private resources might force universities to change their approach to PhD education, even if they do not want to.

There are two responsible courses of action: either radically reform doctoral programmes or shut them down.

The necessary changes are both curricular and institutional. One reason that many doctoral programmes do not adequately serve students is that they are overly specialized, with curricula fragmented and increasingly irrelevant to the world beyond academia. Expertise, of course, is essential to the advancement of knowledge and to society. But in far too many cases, specialization has led to areas of research so narrow that they are of interest only to other people working in the same fields, subfields or sub-subfields. Many researchers struggle to talk to colleagues in the same department, and communication across departments and disciplines can be impossible.

If doctoral education is to remain viable in the twenty-first century, universities must tear down the walls that separate fields, and establish programmes that nourish cross-disciplinary investigation and communication. They must design curricula that focus on solving practical problems, such as providing clean water to a growing population. Unfortunately, significant change is unlikely to come from faculty members, who all too often remain committed to traditional approaches. Students, administrators, trustees and even people from the public and private sectors must create pressure for reform. It is important to realize that problems will never be solved as long as each institution continues to act independently. The difficulties are systemic and must be addressed comprehensively and cooperatively. Prestige is measured both within and beyond institutions by the number and purported strength of a department’s doctoral programmes, so, seeking competitive advantage and financial gain from alliances with the private sector, universities continue to create them. As is detailed on page 276, that has led most fields to produce too many PhDs for too long.

The solution is to eliminate programmes that are inadequate or redundant. The difficult decisions should be made by administrators, in consultation with faculty members at their own and other universities, as well as interested, informed and responsible representatives beyond the academic community who have a vested interest in effective doctoral education. To facilitate change, universities should move away from excessive competition fuelled by pernicious rating systems, and develop structures and procedures that foster cooperation. This would enable them to share faculty members, students and resources, and to efficiently increase educational opportunities. Institutions wouldn’t need a department in every field, and could outsource some subjects. Teleconferencing and the Internet mean that cooperation is no longer limited by physical proximity.

Consortia could contain a core faculty drawn from the home department, and a rotating group of faculty members from other institutions. This would reduce both the number of graduate programmes and the number of faculty members. Students would have access to more academic staff with more diverse expertise in a wider range of fields and subfields. Faculty members will resist, but financial realities make a reduced number of posts inevitable.

Higher education in the United States has long been the envy of the world, but that is changing. The technologies that have transformed financial markets and the publishing, news and entertainment industries are now disrupting the education system. In the coming years, growing global competition for the multibillion-dollar education market will increase the pressure on US universities, just when public and private funding is decreasing. Although significant change is necessary at every level of higher education, it must start at the top, with total reform of PhD programmes in almost every field. The future of our children, our country and, indeed, the world depends on how well we meet this challenge.

Mark C. Taylor is chair of the department of religion at Columbia University in New York and the author of Crisis on Campus: A Bold Plan for Reforming Our Colleges and Universities (Knopf, 2010). e-mail:mct22@columbia.edu

Fonte: http://www.nature.com/news/2011/110420/full/472261a.html

O verdadeiro gargalo de engenheiros

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Abrir mais vagas não adianta, nossos alunos têm limitações. A maioria não tem habilidades mínimas em matemática. O resultado é a evasão dos cursos

Entre as questões em debate em educação, destaca-se hoje a quantidade de profissionais em áreas de ciência e tecnologia.

Muitos propõem formar mais engenheiros e mais professores de química e física criando vagas no ensino superior para essas carreiras.

Essas propostas são importantes, mas não levam em consideração limitações dos alunos.

O que de fato limita a qualidade e o número de formandos nas áreas de ciências exatas e tecnológicas? Dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) apontam que a maior restrição está no número de jovens com habilidades mínimas em matemática.

Os resultados de avaliações internacionais tendem a repercutir entre nós apenas pela constatação de que estamos nas últimas colocações. Mas o Pisa vai muito além: fornece dados valiosos sobre o desempenho dos jovens de 15 anos.

O exame de 2009 foi feito por aproximadamente 470 mil alunos de 15 anos pelo mundo. A amostra representa 26 milhões de alunos de 65 países. Cada exame avalia três áreas -leitura, matemática e ciências- e estabelece seis níveis de competência.

Para uma ideia do que significa um aluno estar em cada um desses níveis (ou abaixo de todos), veja ao lado exemplos de questões similares às aplicadas em matemática.

Os dados mostram que 88,1% dos alunos não chegam ao nível 3 -não sabem, portanto, ler gráficos. Além disso, 96,1% não conseguem explicar o que ocorre numa troca de moeda se a taxa mudar. Mais do que impossibilitados de estudar economia, poderiam ser enganados com facilidade em qualquer outro país.

A distribuição limita o percentual dos nossos jovens em áreas que exijam competências mínimas em matemática, classificados do nível quatro para melhor. Só 3,8% dos participantes brasileiros do Pisa alcançaram esse desempenho.

Considerando que a população de jovens com 15 anos no Brasil é de aproximadamente 3,2 milhões, teríamos, no máximo, cerca de 122 mil jovens aptos para às carreiras de exatas. Esse número ainda cai no final do ensino médio, porque evidentemente há estudantes com habilidades mínimas que optam por outras carreiras profissionais.

Em 2011, o Ministério da Educação anunciou que dobraria as vagas de engenharia. Mas, em 2009, os 1.500 cursos existentes ofereciam 150 mil vagas ao ano, tinham 300 mil matriculados (embora as vagas permitissem até 750 mil, já que o curso dura cinco anos) e formaram 30 mil.

Uma alta evasão, para a qual contribui o déficit de habilidade matemática que o Pisa evidencia. Com conhecimentos tão pequenos de matemática, não surpreende que os alunos tenham dificuldades já no ensino médio. Um exemplo: para acompanhar gráficos nas aulas de física.

A Austrália tem 38,1% dos seus alunos no nível quatro ou superior na avaliação de matemática do Pisa; o Canadá, 43,3%; a Coreia do Sul, 51,8%. O Brasil tem 3,8%. Esses países têm proporcionalmente pelo menos dez vezes mais alunos aptos para as áreas de exatas e tecnológicas. Mesmo com uma população bem menor, a Coreia pode formar muito mais engenheiros do que nós.

A política educacional dos últimos 20 anos tem sido colocar os alunos na escola, uma etapa importante. Hoje, o desafio é melhorar, e muito, a qualidade do ensino fundamental. No momento em que se discute um novo Plano Nacional de Educação, deveríamos propor ações concretas para atacar a raiz do problema.

FERNANDO PAIXÃO, 63 físico, é professor do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp
MARCELO KNOBEL, 44, físico, é professor do Instituto de Física Gleb Wataghin e pró-reitor de graduação da Unicamp

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/65288-o-verdadeiro-gargalo-de-engenheiros.shtml

Mas afinal, o que é inteligência?

(por Isaac Asimov)

Quando eu estava no exército, fiz um teste de aptidão, solicitado a todos os soldados, e consegui 160 pontos.

A média era 100.

Ninguém na base tinha visto uma nota dessas e durante duas horas eu fui o assunto principal.

(Não significou nada – no dia seguinte eu ainda era um soldado raso da KP – Kitchen Police)

Durante toda minha vida consegui notas como essa, o que sempre me deu uma ideia de que eu era realmente muito inteligente. E eu imaginava que as outras pessoas também achavam isso.

Porém, na verdade, será que essas notas não significam apenas que eu sou muito bom para responder um tipo específico de perguntas acadêmicas, consideradas pertinentes pelas pessoas que formularam esses testes de inteligência, e que provavelmente têm uma habilidade intelectual parecida com a minha?

Por exemplo, eu conhecia um mecânico que jamais conseguiria passar em um teste desses, acho que não chegaria a fazer 80 pontos. Portanto, sempre me considerei muito mais inteligente que ele.

Mas, quando acontecia alguma coisa com o meu carro e eu precisava de alguém para dar um jeito rápido, era ele que eu procurava. Observava como ele investigava a situação enquanto fazia seus pronunciamentos sábios e profundos, como se fossem oráculos divinos.
No fim, ele sempre consertava meu carro.

Então imagine se esses testes de inteligência fossem preparados pelo meu mecânico.

Ou por um carpinteiro, ou um fazendeiro, ou qualquer outro que não fosse um acadêmico.

Em qualquer desses testes eu comprovaria minha total ignorância e estupidez. Na verdade, seria mesmo considerado um ignorante, um estúpido.

Em um mundo onde eu não pudesse me valer do meu treinamento acadêmico ou do meu talento com as palavras e tivesse que fazer algum trabalho com as minhas mãos ou desembaraçar alguma coisa complicada eu me daria muito mal.

A minha inteligência, portanto, não é algo absoluto mas sim algo imposto como tal, por uma pequena parcela da sociedade em que vivo.

Vamos considerar o meu mecânico, mais uma vez.

Ele adorava contar piadas.

Certa vez ele levantou sua cabeça por cima do capô do meu carro e me perguntou:

“Doutor, um surdo-mudo entrou numa loja de construção para comprar uns pregos. Ele colocou dois dedos no balcão como se estivesse segurando um prego invisível e com a outra mão, imitou umas marteladas. O balconista trouxe então um martelo. Ele balançou a cabeça de um lado para o outro negativamente e apontou para os dedos no balcão. Dessa vez o balconista trouxe vários pregos, ele escolheu o tamanho que queria e foi embora. O cliente seguinte era um cego. Ele queria comprar uma tesoura. Como o senhor acha que ele fez?”

Eu levantei minha mão e “cortei o ar” com dois dedos, como uma tesoura.

“Mas você é muito burro mesmo! Ele simplesmente abriu a boca e usou a voz para pedir”

Enquanto meu mecânico gargalhava, ele ainda falou:

“Tô fazendo essa pegadinha com todos os clientes hoje.”
“E muitos caíram?” perguntei esperançoso.
“Alguns. Mas com você eu tinha certeza absoluta que ia funcionar”.
“Ah é? Por quê?”
“Porque você tem muito estudo doutor, sabia que não seria muito esperto”

E algo dentro de mim dizia que ele tinha alguma razão nisso tudo.

(tradução livre do original “What is inteligence, anyway?”)

Fonte: http://www.updateordie.com/2012/05/15/mas-afinal-o-que-e-inteligencia-isaac-asimov/