Da relação direta de você limpar entre ter que limpar seu próprio banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus

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Excelente texto extraído do blog de Daniel Duclos, brasileiro que atualmente mora na Holanda. De uma lucidez impressionante.

A sociedade holandesa tem dois pilares muito claros: liberdade de expressão e igualdade. Claro, quando a teoria entra em prática, vários problemas acontecem, e há censura, e há desigualdade, em alguma medida, mas esses ideais servem como norte na bússola social holandesa.

Um porteiro aqui na Holanda não se acha inferior a um gerente. Um instalador de cortinas tem tanto valor quanto um professor doutor. Todos trabalham, levam suas vidas, e uma profissão é tão digna quanto outra. Fora do expediente, nada impede de sentarem-se todos no mesmo bar e tomarem suas Heinekens juntos. Ninguém olha pra baixo e ninguém olha por cima. A profissão não define o valor da pessoa – trabalho honesto e duro é trabalho honesto e duro, seja cavando fossas na rua, seja digitando numa planilha em um escritório com ar condicionado. Um precisa do outro e todos dependem de todos. Claro que profissões mais especializadas pagam mais. A questão não é essa. A questão é “você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém”.

Profissões especializadas pagam mais, mas não muito mais. Igualdade social significa menor distância social: todos se encontram no meio. Não há muito baixo, mas também não há muito alto. Um lixeiro não ganha muito menos do que um analista de sistemas. O salário mínimo é de 1300 euros/mês. Um bom salário de profissão especializada, é uns 3500, 4000 euros/mês. E ganhar mais do que alguém não torna o alguém teu subalterno: o porteiro não toma ordens de você só porque você é gerente de RH. Aliás, ordens são muito mal vistas. Chegar dando ordens abreviará seu comando. Todos ali estão em um time, do qual você faz parte tanto quanto os outros (mesmo que seu trabalho dentro do time seja de tomar decisões).

Esses conceitos são basicamente inversos aos conceitos da sociedade brasileira, fundada na profunda desigualdade. Entre brasileiros que aqui vêm para trabalhar e morar é comum – há exceções –  estranharem serem olhados no nível dos olhos por todos – chefe não te olha de cima, o garçom não te olha de baixo. Quando dão ordens ou ignoram socialmente quem tem profissão menos especializadas do que a sua, ficam confusos ao encontrar de volta hostilidade em vez de subserviência. Ficam ainda mais confusos quando o chefe não dá ordens – o que fazer, agora?

Os salários pagos para profissão especializada no Brasil conseguem tranquilamente contratar ao menos uma faxineira diarista, quando não uma empregada full time. Os salários pagos à mesma profissão aqui não são suficientes pra esse luxo, e é preciso limpar o banheiro sem ajuda – e mesmo que pague (bem mais do que pagaria no Brasil a) um ajudante, ele não ficará o dia todo a te seguir limpando cada poerinha sua, servindo cafézinho. Eles vêm, dão uma ajeitada e vão-se a cuidar de suas vidas fora do trabalho, tanto quanto você. De repente, a ficha do que realmente significa igualdade cai: todos se encontram no meio, e pra quem estava no Brasil na parte de cima, encontrar-se no meio quer dizer descer de um pedestal que julgavam direito inquestionável (seja porque “estudaram mais” ou “meu pai trabalhou duro e saiu do nada” ou qualquer outra justificativa pra desigualdade).

Porém, a igualdade social holandesa tem um outro efeito que é muito atraente pra quem vem da sociedade profundamente desigual do Brasil: a relativa segurança. É inquestionável que a sociedade holandesa é menos violenta do que a brasileira. Claro que aqui há violência – pessoas são assassinadas, há roubos. Estou fazendo uma comparação, e menos violenta não quer dizer “não violenta”.

O curioso é que aqueles brasileiros que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social. A sociedade holandesa é relativamente pacífica não porque é rica, não porque é “primeiro mundo”, não porque os holandeses tenham alguma superioridade moral, cultural ou genética sobre os brasileiros, mas porque a sociedade deles tem pouca desigualdade. Há uma relação direta entre a classe média holandesa limpar seu próprio banheiro e poder abrir um Mac Book de 1400 euros no ônibus sem medo.

Eu, pessoalmente, acho excelente os dois efeitos. Primeiro porque acredito firmemente que a profissão de alguém não têm qualquer relação com o valor pessoal. O fato de ter “estudado mais”, ter doutorado, ou gerenciar uma equipe não te torna pessoalmente melhor que ninguém, sinto muito. Não enxergo a superioridade moral de um trabalho honesto sobre outro, não importa qual seja. Por trabalho honesto não quero dizer “dentro da lei” –  não considero honesto matar, roubar, espalhar veneno, explorar ingenuidade alheia, espalhar ódio e mentira, não me importa se seja legalizado ou não. O quanto você estudou pode te dar direito a um salário maior – mas não te torna superior a quem não tenha estudado (por opção, ou por falta dela). Quem seu paí é ou foi não quer dizer nada sobre quem você é. E nada, meu amigo, nada te dá o direito de ser cuzão. Um doutor que é arrogante e desonesto tem menos valor do que qualquer garçom que trata direito as pessoas e não trapaceia ninguém. Profissão não tem relação com valor pessoal.

Não gosto mais do que qualquer um de limpar banheiro. Ninguém gosta – nem as faxineiras no Brasil, obviamente. Também não gosto de ir ao médico fazer exames. Mas é parte da vida, e um preço que pago pela saúde. Limpar o banheiro é um preço a pagar pela saúde social. E um preço que acho bastante barato, na verdade.

Fonte: http://caiobraz.com.br/da-relacao-direta-entre-ter-de-limpar-seu-banheiro-voce-mesmo-e-poder-abrir-sem-medo-um-mac-book-no-onibus/

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Campinas: não existe qualidade de vida sem mobilidade

Viver em Campinas (SP) nos últimos 8 anos me ensinou que a qualidade de vida do trânsito caótico e do ar poluído de Sampa até que valem a pena quando confrontadas com uma cidade em que é impossível (e muito necessário) se mover

Me mudei para a cidade de Campinas, no interior paulista, em Março de 2005, quando passei no vestibular para Ciências Sociais na Unicamp. Paulistana, decidi morar no centro da cidade após constatar que Barão Geraldo (distrito onde se localiza a conhecida universidade) não parecia lá muito “agitado”. Eu estudava à noite, trabalhava de dia, e quanto mais serviços, transporte, etc. disponíveis, melhor.

Após um ano morando no centro percebi que estava redondamente enganada e compreendi por que, afinal de contas, a grande maioria dos estudantes da Unicamp optava por morar em Barão Geraldo. A mobilidade na cidade é ainda pior do que o que eu experienciei nos anos anteriores morando em São Paulo. A cidade é inacessível e representa uma realidade que muitas pessoas vivem no interior paulista, não apenas em Campinas.

Vamos fazer umas contas?

Observem o mapa: eu terminava de trabalhar às 15h no local (A), pegava um ônibus e chegava em casa (B) quase às 16h, tomava banho, comia qualquer coisa e às 18h saía para pegar um ônibus que chegava à universidade (C) quase às 19h. A distância A-B é de cerca de 5km. A distância B-C é de cerca de 10km.

Mapa de Campinas (SP)

Segundo meus cálculos no Google Maps, sem contar a ida ao trabalho e a volta à noite, depois da aula (merecem ser contados à parte, logo vocês verão o por quê), eu demorava 2 horas para percorrer mais ou menos 15km. O cálculo automático do GM me diz que, de carro, o tempo estimado é menor que 30 minutos.

Na ida ao trabalho, de manhã, era pior. Às vezes eu demorava mais de uma hora e meia apenas entre chegar no ponto de ônibus, conseguir pegar um ônibus e chegar ao trabalho. Isso acontece porque, em Campinas, a grande maioria dos locais é servido apenas de uma linha. Não há linhas alternativas, secundárias. Também por isso, as linhas fazem caminhos gigantescos e “coletam” muita gente no caminho. Some isso ao baixíssimo numero de carros em cada linha e o desastre está feito. Os ônibus passavam lotadíssimos, sequer paravam no ponto, e não havia nada que eu pudesse fazer.

Na volta da Unicamp, à noite, era ainda mais complicado. A partir das 20h, muitas linhas de ônibus simplesmente deixam de passar, e as que sobram têm o número de carros reduzidíssimo (um ônibus a cada 40 ou 50 minutos, por exemplo). É comum, no distrito de Barão Geraldo, ver muitos ônibus estacionados fora do terminal enquanto centenas de passageiros esperam para embarcar num terminal vazio. Isso acontece porque não há motoristas e cobradores o suficiente para o número de carros (que já é baixo). Outras situações bizarras e infelizmente comuns são motoristas bêbados (eu vi, com esses olhinhos que a terra há de comer), e alteração de trajeto arbitrária de motoristas para cumprir com um horário impossível na planilha dos fiscais.

As aulas noturnas da Unicamp terminam às 23h, mas o último ônibus para o centro passava às 22h30. Eu e a “turma do centro” saíamos correndo da aula às 22h25 a tempo de pegar o último ônibus. Nas tantas vezes em que o perdi, precisei chamar táxi quando não havia carona.

Os táxis em Campinas são caríssimos e não circulam pelas ruas. Ficam em pontos de táxi para os quais você precisa ligar (exigindo saber o número e ter um telefone com créditos, coisa que nem todo mundo tem, nem tinha em 2005) e chamar. Quando há táxis disponíveis (à noite isso não acontece sempre), eles custam muito, mas muito caro.

Em São Paulo, o preço da bandeirada comum é R$4,10 e o quilômetro rodado à noite (bandeira 2) é R$3,25. O tempo parado custa R$33 por hora. Em Campinas, a bandeirada é R$4,40 (!) e o quilômetro rodado em bandeira 2 custa R$3,45. O tempo parado custa assustadores R$44 por hora. Campinas tem cerca de 1 milhão de habitantes e menos de mil táxis registrados.Antes de uma licitação pequena (178 vagas) feita em 2011 pela prefeitura, a última havia sido realizada nos anos 1970. Em São Paulo (município), são 33mil taxis rodando para 11 milhões de habitantes. Imaginem que São Paulo tivesse 22mil táxis a menos: essa é a situação em Campinas.

“Qualidade” de vida?

Estou me mudando de volta para São Paulo e lido com muita gente que está convencida de que a “qualidade de vida” em Campinas é supostamente “melhor”. O conceito de qualidade de vida é relativo, é claro, mas nem de longe me parece que a qualidade de vida em Campinas é melhor, depois desses últimos 8 anos que passei aqui.

Vocês devem estar se perguntando: mas o trânsito em São Paulo também não impede a mobilidade?

Pois é. Dificulta muito. O transporte em São Paulo é horrível e cheio de problemas. Uma das diferenças, penso, é o tanto que é necessário se deslocar ou não. Grande parte dos bairros paulistanos, mesmo residenciais, tem uma gama razoável de acesso a serviços (supermercados, pequenos restaurantes, opções de lazer, etc) e, quando não têm, em geral em algum bairro próximo é possível encontrá-los. Em Campinas os bairros são extremamente distantes uns dos outros, e muitas vezes ligados exclusivamente por rodovias e viadutos (quase todos privatizados, importante dizer) que dificultam, por exemplo, a opção de usar bicicleta ou de caminhar trechos mais longos. Muitos serviços ficam ainda mais inacessíveis.

A pouca oferta de atividades culturais que a cidade oferece (vale um texto à parte), os poucos parques públicos e museus, também se tornam inacessíveis com um sistema de transporte extremamente ineficaz. Certa vez calculei que, aos sábados ou domingos (quando a quantidade de ônibus circulando é ainda menor) eu demoraria cerca de três horas para ir e voltar de uma exposição usando transporte público.

Então entendi por que os estudantes da Unicamp preferem morar em Barão Geraldo (e depender da universidade em dias de semana e de meia dúzia de serviços e opções de lazer nos outros dias) e entendi porque a cidade ganha 131 novos veículos por dia. Com 1 milhão de habitantes, Campinas tem mais de 700mil veículos. Isso é mais do que o total em Porto Alegre, RS (1,5 milhão de habitantes), Recife, PE (mais de 3 milhões) e Manaus, AM (quase 2 milhões). Campinas é a 3ª cidade com maior número de carros por 100 habitantes, superada apenas por São Caetano do Sul (SP) e Curitiba (PR). São Paulo é a a 9º.

Campinas tem hoje 215 linhas de ônibus, operadas por empresas privadas. A área do município é de 794,433km²São mais ou menos 3,5 linhas por km². Com o dobro da área do município, São Paulo tem seis vezes mais linhas de ônibus, mais ou menos uma linha de ônibus para cada km². Se calcularmos a frota por linha, outra diferença brutal. São Paulo tem um pouco mais de 11 carros circulando em cada linha de ônibus. Campinas tem apenas 4.

A máfia dos transportes e a ira da população campineira

Em 2001, Marta Suplicy era prefeita de São Paulo e Antônio da Costa Santos, o “Toninho”, era prefeito de Campinas, ambos pelo Partido dos Trabalhadora (PT). A questão do transporte público era semelhante nas duas cidades, no início das gestões. Tendo tomado a prefeitura de gestões anteriores que colaboraram no sucateamento do sistema, ambos tinham grandes desafios pela frente.

As campanhas que os elegeram traziam propostas concretas de reformulação dos sistemas, recadastramento das concessões e novas licitações mais exigentes. Isso incluiria mais carros em cada linha, reformulação das linhas, menos passageiros em cada ônibus (lotar ônibus é uma forma de aumentar o lucro das empresas), entre outras coisas. Logo no início de seus mandatos, Marta e Toninho mexeram nesse vespeiro.

Marta foi ameaçada de morte.
Toninho foi assassinado.

A existência de uma máfia dos transportes, e a tal “caixa preta” de que se fala tem ainda consequências graves em ambas as cidades e por isso tantas pessoas foram às ruas (e continuam nas ruas) exigindo melhoras no sistema e na mobilidade. Se em São Paulo as manifestações chamam a atenção, em Campinas elas têm sido quase completamente ignoradas pela mídia de massas. Com a presença forte de movimentos sociais de periferia, em especial do movimento hip hop (que é extremamente forte na cidade), as manifestações em Campinas são um retrato da divisão social existente na cidade.

Os grupos ligados a partidos e universidades cumprem sua própria agenda e, depois de um tempo, têm sobrado nas manifestações apenas os grupos ligados a movimentos da periferia. Esses grupos representam a população campineira em sua maioria, que é massivamente excluída do direito à própria cidade. Não se pode circular, não se pode frequentar as próprias universidades, os poucos parques e opções de lazer e cultura que existem se concentram em espaços que os excluem (como teatros privados e caros dentro de grandes shoppings ou exposições em espaços culturais inalcançáveis de ônibus).

O Estado é, para os excluídos, o símbolo de uma violência sofrida cotidianamente há gerações.

Grupos enfrentam a polícia militar em frente à prefeitura de Campinas em 24/06/2013.

Dessa exclusão vem a ira, a raiva, a fúria. Com um pouco de encorajamento (sobretudo por parte de policiais infiltrados), não tarda a estourar um motim. Hoje, por exemplo, duas cabines de pedágio foram queimadas. O que parece um “ato de vandalismo” num primeiro momento pode fazer todo o sentido do mundo quando juntamos duas peças importantes sobre o modelo de urbanização adotado no interior paulista.

A primeira peça é que pedaços e bairros de uma mesma cidade (ou da mesma região metropolitana) são conectados por rodovias. Quer dizer que as pessoas dependem das rodovias para ir e voltar do trabalho, por exemplo, ou para ter acesso a serviços, lazer e afins. A segunda peça é queessas rodovias foram privatizadas pelo Governo do Estado, que ao mesmo tempo não regula de maneira justa o preço dos pedágios, o que acaba aumentando muito o custo de locomoção para a maioria das pessoas que vivem na periferia campineira e seus arredores. O preço do pedágio dá lucro à empresa concessionária, e impede a população pobre de circular pela cidade livremente, assim como os preços astronômicos e a situação atual do sistema de ônibus.

Impedir ou dificultar a mobilidade urbana faz parte de um projeto de cidade que exclui e segrega. É por não acreditar nesse projeto que lutamos pelo passe livre em São Paulo e em Campinas. É por sofrerem todos os dias com esse projeto que as periferias se organizam pelo direito à cidade que carregam em suas costas.

A diferença gritante nas reações aos protestos de Fernando Haddad e Jonas Donizete, atuais prefeitos da capital e da maior cidade do interior, me dá ainda mais convicção de que São Paulo oferece hoje mais qualidade de vida. Só é possível afirmar o contrário caso você defenda que “qualidade de vida” é dirigir por rodovias privadas, pagando pedágio, com a certeza de que não circulam pessoas pobres em seu bairro. Há quem acredite nisso.

Eu me recuso.

Fonte: https://medium.com/primavera-brasileira/c573a673cb82

Rio e São Paulo, duas arrogantes

Tanto São Paulo quanto o Rio são cidades muito arrogantes. Mas arrogâncias completamente diferentes.

 A arrogância de São Paulo é uma arrogância provinciana.

http://vimeo.com/6400468

É a arrogância isolacionista, às vezes separatista, do self-made man que se basta e não precisa de mais ninguém. É a arrogância da província isolada que se virou sempre sozinha, habitada por uma gente dura que não contava com ajuda dos janotas da Corte.

Por isso, São Paulo tende a olhar mais pra dentro do que pra fora.

Basta ver os títulos provincianos de seus jornais: Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo, Diário de S.Paulo, etc.

Basta ver alguns de seus canais de TV aberta onde todos os programas parecem ser sobre o estado, em sotaque paulista, com apresentadores apavorantes falando sobre crimes infindáveis — sempre cometidos em São Paulo, sem o menor esforço de cobrir, noticiar ou se comunicar com o resto do país. (Eu, carioca, me sentia um intruso só de estar assistindo.)

Um movimento anti-imigrantista como o “São Paulo para os paulistas”, nostálgico por um passado de paulistanidade imaculada que nunca existiu, só poderia nascer em uma terra de cultura provinciana, isolacionista e autossuficiente como São Paulo.

A arrogância imperial carioca

http://vimeo.com/37157187

Já a arrogância do Rio de Janeiro é uma arrogância imperial. É a arrogância do príncipe, do nobre, do playboy. É a arrogância de quem se vê como o exemplo, como o criador de tendências, como o infuenciador de costumes. É a arrogância de quem tem orgulho não do que FEZ, mas do que É. (O Rio tem muitos feitos científicos, empresariais, industriais, mas orgulhar-se deles não faz parte da cultura local.)

A arrogância carioca tem origem em ser uma cidade europeia e imperial, capital do Império Português e, depois, do Brasil, porto de entrada do continente, cidade brasileira mais conhecida no mundo, blá blá blá. Enquanto ninguém olhou para São Paulo durante os 400 anos em que se viraram sozinhos, o carioca se deleitava na atenção de ter todos os olhos do Império sobre si, de se sentir ditando a moda, as gírias, os costumes de todo o Brasil.

Um movimento “Rio de Janeiro para os cariocas” seria completamente inconcebível — não porque o carioca é mais bonzinho que o paulista, mas porque a própria identidade cultural carioca depende desse olhar do outro. (Escuto falar em “Rio para cariocas” e a primeira coisa que penso é na cidade antes da chegada de Dom João em 1808. Quem quer voltar pra lá? Parte da arrogância imperial do Rio é pensar em si mesmo como um dom para a humanidade. “O Rio é do mundo!”, etc

Não é coincidência que, enquanto os principais jornais paulistas se voltam para dentro, os cariocas se voltam para fora: O Dia, Jornal do Brasil, O Globo. Esses títulos, bolados em épocas distantes, são reflexos de aspirações culturais profundas e reveladoras, cujos efeitos continuam sendo sentidos até hoje.

Enquanto algumas emissoras de TV aberta se voltavam quase que exclusivamente para São Paulo, a Rede Globo se voltou sempre para fora. Perfeito exemplo da arrogância imperial carioca, a Globo unificou o país como poucas outras instituições da segunda metade do século XX, mas fez isso exportando as gírias e os costumes, o jeito e a moda dos cariocas. (Somente há pouco tempo, a Globo começou a ambientar novelas, gravar alguns telejornais nacionais e filmar o Jô, entre outros, em São Paulo, e foi uma mudança impactante, coisa de sair no jornal.)

Não conhecer Paris

http://vimeo.com/18886355

Existe outra diferença fascinante: Rio e São Paulo são duas das cidades mais interessantes do mundo, mas…

Não conheço nenhum carioca classe média que nunca tenha ido a São Paulo. Todos foram, ao menos na infância, para o Simba Safári, Playcenter, Cidade da Criança. Depois, sempre teve aquela reunião de trabalho, aquela entrevista de emprego ou, no mínimo, aquele show imperdível. Alguns poucos odeiam São Paulo, quase todos dizem que não morariam lá (apesar de muitos acabarem morando), mas a maioria acha que é uma cidade muito legal de visitar, passar o fim de semana, curtir vida noturna, ir ao teatro, etc.

Por outro lado, conheço muitos paulistas que nunca foram ao Rio e nem querem ir. Não tem vivência alguma da cidade, mas acham que é suja, perigosa, decadente. Aliás, é sim. E também é uma das cidades mais lindas do mundo e um dos principais berços da cultura brasileira, de Machado de Assis à Garota de Ipanema, passando pela Rede Globo.

Como disse uma amiga paulistana, é como um francês passar a vida morando a 400 km de Paris e, mesmo que odeie Paris com todos os bons motivos que podem fazer alguém odiar Paris, nunca ter tido a curiosidade de ir lá e ver como é Paris.

Rio e São Paulo, hoje

Essas tendências históricas que moldam a nossa identidade não têm necessariamente nada a ver (aliás, quase nunca) com o mundo atual.

A provinciana São Paulo de 2012 é uma cidade muito mais cosmopolita do que o imperial Rio de Janeiro. Na heterogênea Sampa, eu vejo tribos e subculturas. Já no homogêneo Rio, todos parecem ser da mesma tribo, com pequenas diferenças entre subúrbio e zona sul ou morro e asfalto. Pequenas mesmo: em São Paulo, dá pra saber o bairro de uma pessoa só pelo sotaque; no Rio, morro e asfalto fazem questão de usar as mesmas gírias.

Hoje, as pessoas vão para São Paulo para ser aquilo que querem ser, punks, barbies ou hipsters. Quando vão pro Rio, é porque querem ser cariocas.

Não é à toa que São Paulo tem a Liberdade e o Bixiga, e o Rio não tem, nem nunca teve, nenhuma comunidade étnica. (O mais próximo disso, como não poderia deixar de ser, é o Pequeno Portugal, mas é um bairro de Niterói, fundado em uma época quando o outro lado da baía era muito mais distante do que hoje.)

São Paulo é uma mescla de cultura e sotaques que contam sua história e definem sua identidade. Se os paulistas deixam cair o “s” plural mais do que a maioria dos brasileiros é provavelmente por causa da forte influência italiano, com seus plurais sem “s”.

Já o Rio é a mais lusitana das cidades brasileiras, ex-capital do Império Português, completamente impermeável a qualquer influência externa de peso, e a que fala o português mais próximo da matriz, chiados e tudo. (Não que isso queira dizer que seja o melhor português, o mais bem falado, etc, mas é, com certeza, ao lado de alguns outros, como o paraense, o português que se mostrou menos suscetível a todas as influências locais e nativas que foram gradualmente distanciando a língua brasileira da lusitana.)

São Paulo já não é mais provinciana e nem autossuficiente (o que seria de São Paulo sem o resto do Brasil?), mas essa identidade ainda molda a visão que a cidade tem de si mesmo e, às vezes, explode em movimentos como “São Paulo para os Paulistas”.

O Rio de Janeiro não é mais imperial, e nem dita mais as modas e as gírias do Brasil, mas continua sendo o porto de entrada no país, sua cidade mais famosa e futura anfitriã dos Jogos Olímpicos. (Moro em Copacabana e gosto de brincar com os amigos paulistas: “meu BAIRRO é mais conhecido do que sua cidade, mermão!”)

De certo modo, hoje tudo se inverteu: o Rio, quanto mais vai se tornando uma cidade portuguesa provinciana, mais sente a necessidade de ostentar sua antiga arrogância imperial; São Paulo, quanto mais imigrantes recebe e quanto mais cosmopolita se torna, mais sente a necessidade de preservar sua arrogância provinciana autossuficiente.

“São Paulo é como a morte….”

Nada disso pode ser separado da história recente de ambas as cidades.

São Paulo está em dinâmico processo de expansão há mais de um século, sem dar mostras de parar. Já o Rio vai na contramão e vive um declínio que já dura cinquenta anos.

Por isso, uma das principais características da vida cultural carioca das últimas décadas é uma atração irresistível por São Paulo.

Quando eu era pequeno, todos os filmes, novelas e telejornais eram filmados no Rio. Os voos internacionais chegavam somente por aqui e os pobres paulistas muitas vezes tinham que esperar horas ou trocar de avião para conseguir chegar em casa. Até mesmo o Concorde pousava no Galeão, e o síndico do meu prédio tinha uma estátua em casa, prêmio por ser o passageiro mais frequente do voo Paris-Rio. A Bolsa de Valores do Rio, onde meu pai fez a fortuna que lhe permitiu ser vizinho desse cara, era a maior do país — e hoje nem existe mais. Nem o Concorde, aliás. E nem meu vizinho, que morreu assassinado.

Nas décadas de 80 e 90, poderia ter havido uma coluna no Globo: “empresas que saíram do Rio essa semana”. Perdi a conta de quantos amigos foram morar em São Paulo, felizes ou a contragosto, seja porque suas empresas se mudaram ou porque só lá encontraram bons empregos.

Uma anedota ilustra bem a cooptação:

Eu gostava de dizer que a principal diferença entre São Paulo e Rio era que paulista achava graça no José Simão (rá rá vapt vupt!) da Folha de S.Paulo e o carioca, eu incluso, não conseguia ver qualquer valor nesse homem; já o carioca achava graça no Tutty Vasques, do Jornal do Brasil e da Veja Rio, cujo humor costumava ser impermeável aos paulistas.

Mas aí o tempo passou: o Jornal do Brasil faliu e foi escorraçado pra internet, onde vegeta; o Zé Simão virou articulista da Folha, simbolizando a decadência do jornal; a Veja surtou e virou extrema-direita histérica; e o Tutty, quem diria, assim como a Greta em Irajá, acabou no mais-paulista-impossível Estadão — incrivelmente o único, dentre os grandes veículos, que não passou por sérios transtornos de personalidade nos últimos anos.

E, assim, lá se foi minha analogia que tantos bons serviços me prestou ao longo de vinte anos.

Ou, como vaticinou uma amiga que perdeu o emprego de dez anos porque não quis sair do Rio com sua empresa:

“São Paulo é como a morte, um dia chega.”

Mais um pós-escrito tristemente necessário

O texto já acabou. Podem ir embora. Circulando. Mas achei importante falar mais duas coisinhas.

Em primeiro lugar, adoro São Paulo. É importante reiterar, porque muita gente burra (claro que não estou falando com você, arguto leitor) acha que elogiar o Rio significa necessariamente desmerecer São Paulo e já iria aparecer nos comentários com cinco pedras na mão.

São Paulo é tudo que uma grande cidade tem que ser. Ela é o motivo pelo qual nos juntamos em metrópoles. Ela é eclética, livre, louca, hospitaleira. Já morei e trabalhei em São Paulo, onde namorei uma linda paulistana. O lugar onde me sinto melhor no mundo é em São Paulo (Praça Roosevelt, não pergunte, sou de teatro, fazer o quê?). Teve época em que até pensei: meus lançamentos fazem mais sucesso, tenho mais amigos, fiz mais consultorias, ganhei mais dinheiro, transei com mais mulheres, vendi mais livros, tudo mais em São Paulo do que no Rio. O que é mesmo que estou fazendo aqui? (Aí dei uma volta pela Lagoa e lembrei.)

Então, se você acha que esse texto foi escrito por um carioca que odeia São Paulo, leia de novo.

Em segundo lugar, cresci cercado de cariocas por adoção e por adoração. Um professor que veio do Arizona de ônibus, se apaixonou e ficou. Um sueco que passou um carnaval e nunca nem voltou, mandou o pai encaixotar o quarto. Um executivo italiano que preferiu se demitir quando a empresa queria mandá-lo de volta à matriz.

Eu invejava um pouco essas histórias, sabe? Porque essas pessoas puderam fazer uma coisa que eu nunca pude.

Então, em 2005, recém-saído do meu casamento e meio perdido, surgiu a chance de morar em Nova Orleans, uma das cidades mais interessantes do mundo, e eu fui. Mil aventuras depois, em 2011, finalmente pude fazer o que tanto invejava. Quando todas as forças da vida e caminhos da carreira me impeliam a ficar nos Estados Unidos, eu voltei.

Rio, minha cidade querida, nesse seu aniversário de 447 anos, saiba que não estou mais aqui por um mero acaso do destino, mas porque te escolhi.

Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // todos os meus textos são rigorosamente ficcionais. // se gostou, mande um email, me siga nofacebook, compre meus livros, faça uma doação ou venha às minhaspalestras. e eu te agradeço.

Fonte: http://papodehomem.com.br/rio-e-sao-paulo/

Atentado!

Vídeo em que o artista explode bombas de tinta sobre outdoors na cidade de São Paulo.

Os atentados, além de uma crítica à especulação publicitária, são interferências estéticas, já que as cores e as imagens são previamente combinadas. As ações, sempre subversivas, são uma resposta ao bombardeio visual da mídia na paisagem urbana. O vídeo participou de exposições na França, Suíça, Espanha, Cuba e Eslováquia.

Fonte: http://vimeo.com/22024320

Não existe rodeio sem crueldade!

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Por Mariana Hoffmann

O Brasil está se tornando um pólo da indústria dos rodeios, que movimenta todos os anos cerca de 2 bilhões de dólares nas mais de 1,2 mil festas de peão nacionais. O maior evento, em Barretos, recebe em torno de um milhão de pessoas, perdendo apenas para o Carnaval do Rio de Janeiro. Os números estratosféricos refletem a bonança da atividade agropecuária no Brasil, além da forte influência da cultura country norte-americana. São hordas consumindo calças apertadas, chapéu de couro e música sertaneja. Tudo já no formato adequado ao consumo de grandes massas: pouco conteúdo e muito barulho. Isso, por si só, já seria degradante. Porém, a faceta mais cruel dos rodeios se esconde nos bretes, onde o espectador comum não tem acesso.

Aparentemente, o boi “bravo” está lutando para não ser montado. Mas a realidade é que a maior parte dos bovinos e equinos utilizados nos eventos são animais pacíficos. As reações de saltar e corcovear se devem ao uso de instrumentos que comprimem regiões sensíveis, como a virilha e os órgãos genitais do animal, fazendo-o se debater na tentativa de se livrar do “equipamento”. Um dos mais utilizados é o sédem: espécie de cinta que é amarrada na virilha e apertada com força minutos antes do animal entrar na arena, causando muita dor. Também são utilizadas esporas e outros objetos pontiagudos sob a sela, substâncias abrasivas (como pimenta e terebintina) são colocadas no corpo do animal para que ele fique irritado e salte, choques elétricos e mecânicos também são aplicados aos animais que estão no brete para aumentar o estresse e gerar agressividade. Os que defendem a prática costumam alegar que o animal “trabalha” apenas 8 segundos (tempo em que o peão deve permanecer montado). Porém, os treinos também são feitos com os equipamentos, e há relatos de peões que treinam de 6 a 8 horas por dia!

Os abusos e maus-tratos são tão evidentes que já existe uma extensa literatura médica e legal condenando o uso dos apetrechos de rodeio. O site www.odeiorodeio.com mostra uma série de laudos e pareceres, como o da professora Júlia Matera, presidente da Comissão de Ética da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo: “A utilização de sedém, peiteiras, choques elétricos ou mecânicos e esporas gera estímulos que produzem dor física nos animais, em intensidade correspondente à intensidade dos estímulos. Além da dor física, esses estímulos causam também sofrimento mental aos animais, uma vez que eles têm capacidade neuropsíquica de avaliar que esses estímulos lhes são agressivos, ou seja, perigosos à sua integridade”. Uma vez evidenciados os maus-tratos, conclui-se que os rodeios são totalmente inconstitucionais. Mesmo assim, recebem a bênção do poder público e de diversas empresas que atuam como patrocinadoras.

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Prova do laço: atrocidade
Não é incomum que bezerros fiquem paralíticos devido ao tranco dado pelo laço em seu pescoço. Muitos sofrem lesões na coluna vertebral e traquéia.

“Testemunhei a morte instantânea de bezerros após a ruptura da medula espinhal. Também cuidei de bezerros que ficaram paralíticos e cujas traquéias foram total ou parcialmente rompidas. Ser atirado violentamente ao chão tem causado a ruptura de diversos órgãos internos, resultando em uma morte lenta e agonizante”.  (Relato do médico veterinário E. J. Finocchio, publicado na revista “The Animals Agenda”)

Se você é contra, assine a petição contra  realização de rodeios do Brasil.

Fonte: http://verdedentro.wordpress.com/2009/03/04/nao-existe-rodeio-sem-crueldade/

Uma sede fixa para Copa e Olimpíadas

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por Charles Banks-Altekruse*; Ilustração: Caio Gomez

A Europa está se desdobrando para remediar a crise econômica da Grécia. Até porque essa crise já se alastrou por outros países do Velho Continente e abalou o poder do euro. Foi por um motivo simples que a coisa chegou a esse ponto: os gregos gastaram mais do que podiam, gerando uma dívida pública de mais de € 300 bilhões.

Parte dos gastos aconteceu em 2004, quando Atenas sediou a Olimpíada. Para preparar-se, a capital desembolsou US$ 14 bilhões. Esse gasto provavelmente contribuiu para os problemas econômicos que vemos hoje. Isso já aconteceu antes: em 1976, por exemplo, os Jogos de Montreal custaram 400% mais do que o previsto. A cidade quase foi à falência e precisou de 30 anos para pagar as dívidas.

A culpa é do rodízio de sedes das competições esportivas. Por causa desse sistema, as Olimpíadas e a Copa do Mundo de Futebol criaram uma máquina eterna de reforma e construção. As sedes são obrigadas a investir em centros de competição que ficarão abandonados em poucos anos. E deixarão uma coleção de dívidas. Os Jogos de Pequim exigiram US$ 40 bilhões, e muitas das instalações erguidas com o dinheiro já estão fechadas. Precisamos de um novo modelo, que dê sede fixa a Copa e Olimpíadas.

Como? Uma ideia é manter os Jogos em um país, edição após edição. A própria Grécia fez essa proposta para as Olimpíadas no fim do século 19, reivindicando o posto de anfitriã. Outra opção: um grupo de 5 sedes permanentes (uma para cada anel do símbolo olímpico). Essas cidades, somente, fariam um rodízio entre si para abrigar os Jogos.

A experiência e a estrutura criada pelas sedes evitariam problemas financeiros. E trariam um benefício para os atletas. Pular de país para país faz com que eles tenham de se preparar sempre para condições diferentes de competição. Na Olimpíada de Vancouver, encerrada em março, um competidor georgiano de luge (esporte em que se desce uma pista de gelo com um trenó) morreu depois de perder o controle em um treino e ser jogado para fora da pista. O percurso da competição era tido como rápido demais, e atletas estrangeiros tiveram acesso limitado para treino pela organização. Além disso, os competidores são vítimas das relações mal resolvidas entre países. Pergunte aos atletas que não competiram por causa dos boicotes. Em 1980, eu fazia parte da equipe americana de remo que iria aos Jogos de Moscou. Mas fiquei em casa, como 466 outros atletas americanos, numa ação em repúdio à invasão do Afeganistão pelos soviéticos.

Fincar a bandeira das Olimpíadas em um só lugar seria a chance de criar Jogos mais sustentáveis, sem transformar a competição em uma ameaça para a economia das sedes e do mundo. E de dar valor ao sonho olímpico dos atletas. Como o meu.

* Charles Banks-Altekruse é ex-atleta da equipe olímpica de remo dos EUA e fundador da CA Consulting, consultoria de comunicação. Os artigos aqui publicados não representam necessariamente a opinião da SUPER.

Fonte: http://super.abril.com.br/cotidiano/sede-fixa-copa-olimpiadas-577836.shtml