MAMÕES E CASAMENTO

Faz um tempo, minha esposa tomou a missão de colocar frutas no meu café da manhã.

mamão
Outro dia, uma tarde chuvosa, saí do trabalho e passei no mercado para comprar alguns mamões. Na banquinha, achei só uns poucos, e todos meio feios. Garimpei, escolhi os mais apresentáveis e acabei conseguindo três, cada um com algum defeito pequeno.
Na manhã seguinte, cortei o primeiro em dois: uma metade com umas marcas de batida na casca e a outra perfeita. Comi a parte pior –tive que jogar uma colherada no lixo– e deixei a melhor sobre o balcão da cozinha. Mesma coisa fiz na segunda manhã, com o segundo. O último que sobrou na geladeira tinha uns pontos pretos; virei-o na prateleira de um jeito que escondesse as manchas.
Pois hoje, dia do último mamão, minha mulher acordou mais cedo –normalmente eu me levanto meia hora antes– e, quando eu saí do banho, ela já tinha tomado café da manhã e cantarolava no quarto. Fui para a cozinha e estava lá meu cereal, o leite, o pão, os frios e uma metade de mamão. Na hora, lembrei dos pontinhos podres e virei o bendito para ver: imaculado. Minha esposa acabara de ficar com o pedaço ruim.
Pegando a colher, me senti meio culpado por não ter ido à cozinha antes que ela. Mas, no segundo seguinte, pensei que isso seria negar que ela também pudesse fazer algo por mim. Imagino que tenha ficado feliz por ter saído da cama mais cedo para descobrir a parte ruim do mamão e escondê-la de mim, a mesma alegria silenciosa que eu tivera nos dois dias anteriores. Porque, no fundo, um casamento é isso: oferecer ao outro sempre a melhor metade.

O amor que ninguém vê

Dizem por aí, por poetas, pastores de igrejas e adesivos de carro, que Deus é amor. E eu ouvi, sabe este mesmo Deus onde, que Ele mora nos detalhes. Assim, um exercício mínimo de pensamento sugere que o amor mora nos detalhes.

Nas miudezas cotidianas.

Nos gestos mínimos.

Na pequeneza.

Talvez ninguém veja o coração grafitado no muro, mas ele esconde um homem que saiu de casa, comprou uma lata de spray, perdeu meia hora de trabalho, sujou a camisa branca… Só para tirar do coração – o outro, não este grafitado – um sentimento sublime

Atitudes que passam despercebidas legitimam a vida a dois. Dão vitalidade ao amor que, quem sabe, já está gasto. Tais gestos lembram – principalmente a quem os pratica – que o homem não está sozinho. E que há um mundo inteiro compartilhado entre ele e sua mulher.

É acordar meia hora antes – apesar da preguiça dos diabos e dos palavrões que maldizem o novo dia – para tomar banho e, quando sua mulher finalmente despertar, encontrar o banheiro desocupado.

É perder o lance decisivo do jogo para dar um beijo.

É ir ao cinema, mas abdicar de assistir aquele filme fodão que você tanto queria ver apenas para namorar sua mulher, ficar de mãos dadas, dar uns amassos.

Mas nenhum exemplo aqui será melhor que o post “Mamões e casamentos“, de Bruno Palma e Silva.

O zeitgeist acaba com o amor

Na infância, amar era mais fácil. O amor cabia sim numa fita cassete.

Quando eu tinha 10 anos, fazer mixtapes era a maior prova de amor que se podia dar. A fita cassete era o coração pueril e sôfrego entregue à menina que fazia meu mundo girar mais devagar. As letras diziam tudo o que eu gostaria de dizer – só que em inglês, lingua que nem eu e nem a menina sabia. Eu não entendia patavinas do que estava sendo cantado, mas sabia: aquela voz no rádio era minha cúmplice na arte de amar.

Devoção e paciência. Mixtape era como uma procissão de um homem só.

Eis que a gente cresce e perde o apreço pelo mínimo.

Hoje, a gente presta pouca atenção em tudo. Não dá tempo de um olhar mais demorado.

Hoje, a gente faz muito pouco por todos. Não temos como ser devotos de algo ou alguém, ou algo parecido com isso, quando há tanto o que fazer.

Hoje, a gente espera muito de todos. O mundo é uma profusão de pessoas e seus sabores – por que raios nos contentaríamos com pouco?

Percebam a ambiguidade que vivemos. Damos pouco, queremos muito. E talvez pela falta de tempo, pelo individualismo e pelo sentimento de eternidade – por que fazer hoje o que podemos fazer amanhã? –, apenas nos atentamos às grandes coisas. Àquilo que fuja da normalidade.

Se um cara pede uma menina em casamento. Se o casal decide ter um filho.

Mas isso foge à rotina. E no cotidiano? Como dizer “eu te amo” sem precisar de um Taj Mahal por dia? A resposta para isso é trazer o amor de volta ao mundo concreto, é incorporá-lo às horas. Assim, buscamos saciar a fome com migalhas – aos poucos, todo dia.

Construído entre 1630 e 1652 por cerca de 20 mil homens,o mausoléu idealizado pelo imperador Shah Jahan reverencia sua esposa amada, Aryumand Banu Begam. Você não precisa de 20 mil homens e 22 anos para demonstrar seus sentimentos

Eu já quis ter um filho. Ou dois. Dois que passassem os domingos de chuva correndo no barro. Eles zanzariam sorridentes de um lado para outro, encharcados. Eu berraria lá de dentro: “Saiam da chuva! Vocês vão pegar uma gripe!” E a mulher repreenderia – a mim, não a eles:

“Deixe os meninos brincarem!”

Quando um homem diz a uma mulher “faça um filho comigo”, não há demonstração de amor maior. Pode-se borrar o céu com o nome da mulher, fazer serenatas, entregar-lhe todas as flores do mundo, prometer a lua. Mas um filho é desejar viver além da vida, é criar para perpetuar, é tornar aquele enlace imortal.

Mas o eterno começa hoje. E, para que não seja uma sucessão infinita de vazios, devemos buscar coisas pequenas no amor.

Rodolfo Viana

É jornalista. Torce para o Marília Atlético Clube. Gosta quando tira a carta “Conquiste 24 territórios à sua escolha, com pelo menos dois exércitos em cada”. Curte tocar Kenny G fazendo sons com a boca. Já fez brotar um pé de feijão de um pote com algodão. Tem 1,75 de miopia. Bebe para passar o tempo. [Twitter | Facebook]

Fonte: http://papodehomem.com.br/o-amor-que-ninguem-ve/

Não saber programar é o analfabetismo do futuro

Imaginar que ainda hoje há pessoas incapazes de ler e escrever é doloroso. Habilidades de leitura e escrita devem ser universais. No entanto, quase ninguém fica incomodado em saber que a maioria das pessoas não sabe programar. Linguagens de programação são dominadas por um percentual ínfimo da população. O que dói mais, nesse caso, é que a questão não esteja no centro da pauta das políticas educacionais.

Assim como o analfabetismo foi tolerado por muito tempo, vivemos o momento em que ainda se aceita que a maioria das pessoas não saibam nada de programação.

A consequência disso é que nosso modo de vida, cada vez mais dependente de códigos, está sendo “desenhado” por uma minoria. Sem entender ao menos o básico, não dá sequer para opinar se um sistema deveria ser feito de um jeito ou de outro. Resta apenas o papel de “usuário”, desprotegido e desinformado quanto às decisões que são tomadas sobre sua vida.

Para mudar isso há uma série de iniciativas surgindo. Por exemplo, o Code.org, campanha apoiada por gente como Bill Clinton ou o rapper Will.i.am. O ponto é defender a ideia de que todo estudante deveria ter a oportunidade de aprender programação já na escola. Outras iniciativas como a CodeAcademy.com partem para a prática: oferecem ferramentas para ensinar programação on-line, para qualquer idade.

O que está em jogo aqui é o futuro da organização social. A tecnologia abre possibilidades extraordinárias de participação na vida pública. Só que saber um mínimo de programação é o requisito para que a ideia de democracia se perpetue.

*

JÁ ERA
O mundo sem drones

JÁ É
A popularização dos drones aéreos

JÁ VEM
Drones aquáticos

ronaldo lemosRonaldo Lemos é diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro e do Creative Commons no Brasil. É professor de Propriedade Intelectual da Faculdade de Direito da UERJ e pesquisador do MIT Media Lab. Foi professor visitante da Universidade de Princeton. Mestre em direito por Harvard e doutor em direito pela USP, é autor de livros como “Tecnobrega: o Pará Reiventando o Negócio da Música” (Aeroplano) e “Futuros Possíveis” (Ed. Sulina). Escreve às segundas na versão impressa do “Tec”.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2013/11/1365651-nao-saber-programar-e-o-analfabetismo-do-futuro.shtml

Porque os jovens profissionais da geração Y estão infelizes

Esta é a Ana.

Ana é parte da Geração Y, a geração de jovens nascidos entre o fim da década de 1970 e a metade da década de 1990. Ela também faz parte da cultura Yuppie, que representa uma grande parte da geração Y.

“Yuppie” é uma derivação da sigla “YUP”, expressão inglesa que significa “Young Urban Professional”, ou seja, Jovem Profissional Urbano. É usado para referir-se a jovens profissionais entre os 20 e os 40 anos de idade, geralmente de situação financeira intermediária entre a classe média e a classe alta. Os yuppies em geral possuem formação universitária, trabalham em suas profissões de formação e seguem as últimas tendências da moda. – Wikipedia

Eu dou um nome para yuppies da geração Y — costumo chamá-los de “Yuppies Especiais e Protagonistas da Geração Y”, ou “GYPSY” (Gen Y Protagonists & Special Yuppies). Um GYPSY é um tipo especial de yuppie, um tipo que se acha o personagem principal de uma história muito importante.

Então Ana está lá, curtindo sua vida de GYPSY, e ela gosta muito de ser a Ana. Só tem uma pequena coisinha atrapalhando:

Ana está meio infeliz.

Para entender a fundo o porquê de tal infelicidade, antes precisamos definir o que faz uma pessoa feliz, ou infeliz. É uma formula simples:

É muito simples — quando a realidade da vida de alguém está melhor do que essa pessoa estava esperando, ela está feliz. Quando a realidade acaba sendo pior do que as expectativas, essa pessoa está infeliz.

Para contextualizar melhor, vamos falar um pouco dos pais da Ana:

Os pais da Ana nasceram na década de 1950 — eles são “Baby Boomers“. Foram criados pelos avós da Ana, nascidos entre 1901 e 1924, e definitivamente não são GYPSYs.

Na época dos avós da Ana, eles eram obcecados com estabilidade econômica e criaram os pais dela para construir carreiras seguras e estáveis. Eles queriam que a grama dos pais dela crescesse mais verde e bonita do que eles as deles próprios. Algo assim:

Eles foram ensinados que nada podia os impedir de conseguir um gramado verde e exuberante em suas carreiras, mas que eles teriam que dedicar anos de trabalho duro para fazer isso acontecer.

Depois da fase de hippies insofríveis, os pais da Ana embarcaram em suas carreiras. Então nos anos 1970, 1980 e 1990, o mundo entrou numa era sem precedentes de prosperidade econômica. Os pais da Ana se saíram melhores do que esperavam, isso os deixou satisfeitos e otimistas.

Tendo uma vida mais suave e positiva do que seus próprios pais, os pais da Ana a criaram com um senso de otimismo e possibilidades infinitas. E eles não estavam sozinhos. Baby Boomers em todo o país e no mundo inteiro ensinaram seus filhos da geração Y que eles poderiam ser o que quisessem ser, induzindo assim a uma identidade de protagonista especial lá em seus sub-conscientes.

Isso deixou os GYPSYs se sentindo tremendamente esperançosos em relação à suas carreiras, ao ponto de aquele gramado verde de estabilidade e prosperidade, tão sonhado por seus pais, não ser mais suficiente. O gramado digno de um GYPSY também devia ter flores.

Isso nos leva ao primeiro fato sobre GYPSYs:

GYPSYs são ferozmente ambiciosos

President1

O GYPSY precisa de muito mais de sua carreira do que somente um gramado verde de prosperidade e estabilidade. O fato é, só um gramado verde não é lá tão único e extraordinário para um GYPSY. Enquanto seus pais queriam viver o sonho da prosperidade, os GYPSYs agora querem viver seu próprio sonho.

Cal Newport aponta que “seguir seu sonho” é uma frase que só apareceu nos últimos 20 anos, de acordo com o Ngram Viewer, uma ferramenta do Google que mostra quanto uma determinada frase aparece em textos impressos num certo período de tempo. Essa mesma ferramenta mostra que a frase “carreira estável” saiu de moda, e  também que a frase “realização profissional” está muito popular.

Para resumir, GYPSYs também querem prosperidade econômica assim como seus pais – eles só querem também se sentir realizados em suas carreiras, uma coisa que seus pais não pensavam muito.

Mas outra coisa está acontecendo. Enquanto os objetivos de carreira da geração Y se tornaram muito mais específicos e ambiciosos, uma segunda ideia foi ensinada à Ana durante toda sua infância:

Este é provavelmente uma boa hora para falar do nosso segundo fato sobre os GYPSYs:

GYPSYs vivem uma ilusão

Na cabeça de Ana passa o seguinte pensamento: “mas é claro… todo mundo vai ter uma boa carreira, mas como eu sou prodigiosamente magnífica, de um jeito fora do comum, minha vida profissional vai se destacar na multidão”. Então se uma geração inteira tem como objetivo um gramado verde e com flores, cada indivíduo GYPSY acaba pensando que está predestinado a ter algo ainda melhor:

Um unicórnio reluzente pairando sobre um gramado florido.

Mas por que isso é uma ilusão? Por que isso é o que cada GYPSY pensa, o que põe em xeque a definição de especial:

es-pe-ci-al | adjetivo
melhor, maior, ou de algum modo
diferente do que é comum

De acordo com esta definição, a maioria das pessoas não são especiais, ou então “especial” não significaria nada.

Mesmo depois disso, os GYPSYs lendo isto estão pensando, “bom argumento… mas eu realmente sou um desses poucos especiais” – e aí está o problema.

Uma outra ilusão é montada pelos GYPSYs quando eles adentram o mercado de trabalho. Enquanto os pais da Ana acreditavam que muitos anos de trabalho duro eventualmente os renderiam uma grande carreira, Ana acredita que uma grande carreira é um destino óbvio e natural para alguém tão excepcional como ela, e para ela é só questão de tempo e escolher qual caminho seguir. Suas expectativas pré-trabalho são mais ou menos assim:

Infelizmente, o mundo não é um lugar tão fácil assim, e curiosamente carreiras tendem a ser muito difíceis. Grandes carreiras consomem anos de sangue, suor e lágrimas para se construir – mesmo aquelas sem flores e unicórnios – e mesmo as pessoas mais bem sucedidas raramente vão estar fazendo algo grande e importante nos seus vinte e poucos anos.

Mas os GYPSYs não vão apenas aceitar isso tão facilmente.

Paul Harvey, um professor da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, e expert em GYPSYs, fez uma pesquisa onde conclui que a geração Y tem “expectativas fora da realidade e uma grande resistência em aceitar críticas negativas” e “uma visão inflada sobre si mesmo”. Ele diz que “uma grande fonte de frustrações de pessoas com forte senso de grandeza são as expectativas não alcançadas. Elas geralmente se sentem merecedoras de respeito e recompensa que não estão de acordo com seus níveis de habilidade e esforço, e talvez não obtenham o nível de respeito e recompensa que estão esperando”.

Para aqueles contratando membros da geração Y, Harvey sugere fazer a seguinte pergunta durante uma entrevista de emprego: “Você geralmente se sente superior aos seus colegas de trabalho/faculdade, e se sim, por quê?”. Ele diz que “se o candidato responde sim para a primeira parte mas se enrola com o porquê, talvez haja um senso inflado de grandeza. Isso é por que a percepção da grandeza é geralmente baseada num senso infundado de superioridade e merecimento. Eles são levados a acreditar, talvez por causa dos constantes e ávidos exercícios de construção de auto-estima durante a infância, que eles são de alguma maneira especiais, mas na maioria das vezes faltam justificativas reais para essa convicção”.

E como o mundo real considera o merecimento um fator importante, depois de alguns anos de formada, Ana se econtra aqui:

A extrema ambição de Ana, combinada com a arrogância, fruto da ilusão sobre quem ela realmente é, faz ela ter expectativas extremamente altas, mesmo sobre os primeiros anos após a saída da faculdade. Mas a realidade não condiz com suas expectativas, deixando o resultado da equação “realidade – expectativas = felicidade” no negativo.

E a coisa só piora. Além disso tudo, os GYPSYs tem um outro problema, que se aplica a toda sua geração:

GYPSYs estão sendo atormentados

Obviamente, alguns colegas de classe dos pais da Ana, da época do ensino médio ou da faculdade, acabaram sendo mais bem-sucedidos do que eles. E embora eles tenham ouvido falar algo sobre seus colegas de tempos em tempos, através de esporádicas conversas, na maior parte do tempo eles não sabiam realmente o que estava se passando na carreira das outras pessoas.

A Ana, por outro lado, se vê constantemente atormentada por um fenômeno moderno: Compartilhamento de Fotos no Facebook.

As redes sociais criam um mundo para a Ana onde: A) tudo o que as outras pessoas estão fazendo é público e visível à todos, B) a maioria das pessoas expõe uma versão maquiada e melhorada de si mesmos e de suas realidades, e C) as pessoas que expôe mais suas carreiras (ou relacionamentos) são as pessoas que estão indo melhor, enquanto as pessoas que estão tendo dificuldades tendem a não expor sua situação. Isso faz Ana achar, erroneamente, que todas as outras pessoas estão indo super bem em suas vidas, só piorando seu tormento.

Então é por isso que Ana está infeliz, ou pelo menos, se sentindo um pouco frustrada e insatisfeita. Na verdade, seu início de carreira provavelmente está indo muito bem, mas mesmo assim, ela se sente desapontada.

Aqui vão meus conselhos para Ana:

1) Continue ferozmente ambiciosa. O mundo atual está borbulhando de oportunidades para pessoas ambiciosas conseguirem sucesso e realização profissional. O caminho específico ainda pode estar incerto, mas ele vai se acertar com o tempo, apenas entre de cabeça em algo que você goste.

2) Pare de pensar que você é especial. O fato é que, neste momento, você não é especial. Você é outro jovem profissional inexperiente que não tem muito para oferecer ainda. Você pode se tornar especial trabalhando duro por bastante tempo.

3) Ignore todas as outras pessoas. Essa impressão de que o gramado do vizinho sempre é mais verde não é de hoje, mas no mundo da auto-afirmação via redes sociais em que vivemos, o gramado do vizinho parece um campo florido maravilhoso. A verdade é que todas as outras pessoas estão igualmente indecisas, duvidando de si mesmas, e frustradas, assim como você, e se você apenas se dedicar às suas coisas, você nunca terá razão pra invejar os outros.

Fonte: http://qga.com.br/comportamento/jovem/2013/09/porque-os-jovens-profissionais-da-geracao-y-estao-infelizes

Privacidade na Internet, espionagem e o Marco Civil

Posted on 27/10/2013 by 
Surveillance_quevaal(Fonte: Wikimedia Commons)

 

Segurança e Privacidade

Por serem conceitos muito próximos, muitos confundem os termos segurança e privacidade. Sendo bem abrangente: segurança consiste em ficar a salvo de perigos ou ameaças enquanto privacidade se trata do direito de optar por não ter detalhes íntimos expostos ao público.

Ao construir uma moradia você coloca grades ou trancas para garantir sua segurança. Já cortinas ou portas internas (como a do banheiro) são pra garantir sua privacidade. Uma roupa de frio num inverno rigoroso é segurança, usar roupas mesmo no verão é privacidade.

 

Só quer privacidade quem está fazendo algo errado?

Vejo variações dessa frase sempre que surgem discussões sobre privacidade. Vamos pensar sobre privacidade e segredo. Sobre privacidade já discutimos, mas e segredo?

Em vez de copiar do dicionário vou apelar para um exemplo:

Imagine que você é solteiro(a) e resolva sair com alguém, depois com outro alguém… e mais outro. Embora não tenha nenhum crime nisso você pode optar por não querer que todos fiquem sabendo. Isso é privacidade. Agora imagine que você tem um compromisso monogâmico com alguém e faz o mesmo, escondendo o ocorrido de seu par. Isso foi um segredo.

Posso falar por horas de situações nas quais uma pessoa prefira usar de sua privacidade e que não sejam atos condenáveis:

  • uma doença que você prefira não tornar pública,
  • seu salário,
  • o fato de estar fazendo entrevistas para um novo emprego,
  • sua idade,
  • seu peso,
  • coisas que se faz entre quatro paredes …

O que não seria uma exposição grave pra mim pode ser pra você que está lendo. E isso é subjetivo. Depende de criação, relacionamentos, religião, contexto.

A privacidade é um valor inerente ao ser humano. O direito de cada indivíduo de controlar quem tem acesso a suas informações mais íntimas é reconhecido pela maioria dos governos democráticos, inclusive pela nossa constituição.

 

Privacidade em tempos de Internet

Além do fato de um site seguro não necessariamente garantir sua privacidade, quais as diferenças quando se trata de Internet? Vou listar algumas…

Invisível e pervasiva

A Internet é algo invisível, intangível. E é tão intrinsecamente presente em nossas vidas que esquecemos dela. A gente fecha a porta do banheiro para se trocar, mas não tampa a câmara do notebook da sala. Estou sendo paranóico? Então olhe Câmeras conectadas à internet colocam em risco privacidade do internauta ou Falha pode dar acesso à webcam sem que usuário perceba. Quem tem um smartphone está levando consigo, o tempo todo e para todo lugar, uma câmera, um microfone e um GPS. Quem tem uma Smart TV moderna tem uma câmera apontada pra sua sala 24 horas por dia.

É eterna

Pode ser que você já tenha feito algo – em uma festa talvez? – que foi visto por outras pessoas, mas que a princípio deveria morrer ali. Pessoas cometem erros, emitem opiniões ainda não inteiramente formadas. É parte do crescimento enquanto ser humano e não deveria ser usado contra uma pessoa. Pois na Internet tudo que você faz é gravado, catalogado, e eterno. Está em algum backup de algum servidor em algum lugar. A princípio por motivos técnicos, mas se houver uso antiético da tecnologia, isso pode voltar pra te assombrar.

Pense em uma criança nascida hoje em dia. Grandes são as chances de que cada e-mail, cada telefonema, cada SMS, cada viagem (lembre-se do GPS), cada chat, cada ligação, cada vez que ela passa por uma câmera de segurança… enfim, de que todas essas informações estejam sendo gravadas e catalogadas. Potencialmente acessíveis a uma corporação ou um governo.

Big Dataanalytics, metadados

Esse não é um artigo técnico, então vou ser breve: embora alguns dados pareçam inúteis ou inofensivos se analisados sozinhos, existem ferramentas computacionais e estatísticas que extraem informações importantes sobre uma população – ou sobre um indivíduo – através da análise de um volume massivo de dados que, a princípio, parecem não dizer nada.

Pra citar um exemplo menos assustador: Uma rede americana estava conseguindo detectar quando suas clientes estavam grávidas a partir da mudança nos hábitos de compras. Eles analisaram mudança no tamanho das bolsas adquiridas e tipo de loções para a pele. O motivo era enviar felicitações para as futuras mamães. Isso fez uma garota denunciar a loja porque a família ficou sabendo da gravidez pela loja e não por ela. Ver How Target Figured Out A Teen Girl Was Pregnant Before Her Father Did.

É novo

Essa discussão é nova. Nossa regulamentação ainda não esta preparada, nossos hábitos também não.

Também a maneira de gerar dinheiro com informação mudou. Antes empresas como emissoras de TV garantiam que nossa atenção ficasse nas telas e capitalizava vendendo essa “janela de atenção” aos anunciantes. Isso evoluiu e hoje temos leis e órgãos regulamentadores como oCONAR para impedir abusos. Atualmente muitas empresas coletam informações sobre nossos hábitos, ações e gostos (nossa privacidade) e usam isso para gerar lucro. Não é uma questão de certo e errado, é apenas novo.

Em termos de lei estamos avançado um pouco aqui no Brasil com as discussões sobre o Marco Civil, mas isso ainda está longe de ser maduro.

 

O PRISM e a espionagem

Comentei um monte de coisas no sentido de “e se usassem para o mal?”, “e se fossem antiéticos?”, “e se um governo ou corporação olhasse tudo?”. As descobertas do Edward Snowden(que arriscou a vida contando isso) demonstram que há anos saímos da especulação e do “e se?“.A coleta, armazenamento e uso – político, econômico e militar – desses dados está acontecendo há anos. De uma maneira tão invisível e gigantesca que deixou pra trás todas as teorias conspiratórias e filmes de ficção. Quantas outras organizações fazem o mesmo e não foram descobertas?

 

E porque o Brasil?

Porque que o Brasil é mais monitorado do que os inimigos clássicos dos EUA? A justificativa interna, para garantir apoio do eleitorado americano, é a costumeira:

“Somos obrigados a desrespeitar a privacidade para te defender dos terroristas!”

O pretexto da segurança é frequentemente usado (por vezes de maneira questionável) para minar privacidade e liberdade. Mas Brasil? Petrobrás? Ministério de Minas e energia? Seu e-mail? Não me parece que a justificativa do terrorismo se aplique.

Talvez seja por vantagens políticas e econômicas. Você já jogou pôquer ou investiu na bolsa ou fez outra coisa que envolva estratégia? Se sim, imagine estar sempre um passo a frente do competidor sabendo o que ele pensa e o que vai fazer depois. Indo além, será que não daria para usar informações privadas para, por exemplo, chantagem?

Não se engane com piadinhas satirizando como se não tivéssemos importância no mundo. Somos uma das maiores economias do mundo. Temos muita água. Temos petróleo. Temos tecnologia. Temos alta capacidade de produção de alimentos e remédios. Somos um gigantesco mercado consumidor, com cada vez mais poder aquisitivo. Temos biodiversidade. Estamos construindo nosso submarino nuclear. Temos força política internacional. O Brasil tem lá sua importância no cenário global.

 

É claro, não se trata de “8 ou 80

Muitas vezes o acesso a essas informações sobre meus hábitos possibilita serviços melhores: propagandas direcionadas em vez de SPAMS, sites que conhecem meus gostos, indicações personalizadas em lojas… isso é ótimo. Outro ponto é que muitos serviços apenas são gratuitos porque capitalizam através desses dados. Se tudo isso fosse proibido talvez nossas redes sociais e e-mails se tornassem serviços pagos.

Assim como no caso da segurança, privacidade na Internet e praticidade de uso são dois pratos em uma mesma balança. Existem meios de se tornar mais anônimo, mas a experiência de uso se torna muito pior. Em nível pessoal, há de se refletir e ver que informação você está disposto a dar em troca do que quer receber. Em nível legislativo, há de se mudar as leis e os mecanismos de controle para proteger as pessoas e países de abusos,  ataques ilícitos e falta de transparência sobre como,  quando e porquê usarão seus detalhes pessoais.

 

Convite à reflexão

Para aqueles que, como eu, trabalham com tecnologia:

Tenhamos consciência do que estamos criando.

Muitas vezes nossos clientes não irão entender que uma decisão técnica pode por em xeque (ou reforçar) a privacidade das pessoas, cabe a nós pensar nisso e criar tecnologias melhores, e não apenas do ponto de vista técnico.

Para todos:

Estamos presenciando uma mudança razoável nas relações entre tecnologia, sociedade e privacidade. Ainda não há respostas absolutas.

Faço então um convite à reflexão. Um convite a acompanhar os debates sobre o Marco Civil, a assinar em favor do mesmo caso você acredite, a refletir sobre a gravidade dessa espionagem recente, a pensar antes de postar algo.

Em suma:  Tenha você o controle quanto a exposição  da sua vida e exija transparência sobre quando, como e porquê usarão suas experiências para gerar lucro ou poder.

 

Há mais gente preocupada

E a preocupação não é de hoje.

No último FISL, 14º Fórum Internacional do Software Livre, entre os dias 3 e 6 de julho com milhares de pessoas no Centro de Eventos da PucRS em Porto Alegre, este assunto teve destaque. Vejam Primeiro dia do Fisl discute a internet centralizada e monopolizada.

Neste primeiro dia do FISL Roy Singham falou sobre a ascenção dos monopólios e do totalitarismo na Internet. Segundo o ClicRBS, ao falar sobre privacidade o Roy com um smartphone na mão chegou a dizer: “isso aqui não é um celular, é um aparelho de rastreamento”.

Silvio Meira abordou este assunto em 5 artigos que valem a pena ler:

governo dos EUA vigia todo mundoEUA vigia todo mundo: e agora?BRASIL, EUA, espionagem, problemas e oportunidades– 
privacidade, política, infraestruturaos tempos da internet: antes e depois de snowdenSobre o Marco Civil o prof. e membro do CGI.br Sérgio Amadeu da Silveira publicou a figura abaixo no último dia 25 no Facebook

1385612_10153365142040274_1841306713_n-500x281

Vamos ajudar a divulgar a luta pela aprovação do Marco Civil com neutralidade, privacidade e sem a remoção de conteúdos sem ordem judicial.

Vejam também O CGI.br e o Marco Civil da Internet

A UNICAMP se antecipou ao problema e desde 2009 tem um grupo discutindo vigilância, tecnologia e sociedade

Uma outra iniciativa que nasceu na UNICAMP mas de forma não oficial e que vale conhecer é a Rádio Muda

Fonte: http://p2p3.com.br/privacidade-na-internet-espionagem-e-o-marco-civil/